O último mês de nossas vidas

Tão dizendo que o mundo tá pra acabar em um mês, e ainda nem terminei de pagar o celular que eu comprei.

Será possível traçar um paralelo entre o mito do fim do mundo em 21 de dezembro de 2012 e a expansão das economias emergentes latino-americanas?

Não há hora mais oportuna pra falar em fim do mundo.

A interpretação do calendário Maia é uma novela profética, obra de ficção baseada nos sintomas da crise de identidade coletiva. Uma história que faz sentido no imaginário coletivo que enxerga nos ideais de revolução uma morte simbólica da História. Todos os ditadores e revolucionários que tivemos nos últimos 200 anos foram apoiados por uma massa cega. O fim do mundo é uma urgência coletiva.

A morte é vista como a solução radical mais eficaz pra qualquer problema. Da morte se ressucita, da morte se redime, da morte paga-se os pecados. “Do mal será queimada a semente.”

Mas nunca foi fácil ao Homem deixar pra trás as suas coisas. Bens não são só bens, são histórias, e histórias são experiências que constroem a identidade de cada um. Mas não seriam então os valores culturais um conjunto de bens coletivos e, assim sendo, o avatar máximo da nossa identidade coletiva?

Normalmente demoram décadas pra percebermos a cultura mudar. Não é o caso quando alcançamos uma velocidade de distribuição e conexão de informação mais rápida do que nossa cognição pode assimilar, e a consequência disso é um jetlag cultural, uma confusão de identidades coletivas e pessoais. São várias as camadas de interação que vão se sobrepondo com um input cada vez maior de informação. Já tem tanta empresa preocupada em pesquisar tendência por aí, uma vez que o futuro é cada vez mais incerto e os fatos de ontem já serem velhos e não fazerem mais sentido.

Isso gera não uma crise, mas uma geração da ansiedade. Dizem esses velhos estudiosos do futuro que a novidade já é um estilo de vida.

Guiados pelo senso autodestrutivo do Homem (de querer se desfazer em mil pedaços em festa), nos lembramos novamente do emblema juvenil: Live fast. Ao mesmo tempo, o deadline é o impulso criativo da humanidade, a água no pescoço. O fim do mundo é seu chefe no seu pescoço pela pauta de sexta-feira de noite.

Existe um capítulo do Simulacros e Simulação do Jean Baudrillard que se chama “Implosão do Sentido nos mass media”. Ele faz uma comparação da economia monetária com a economia da informação: Quanto mais moeda circulante, mais alta a taxa de inflação econômica (pergunte aos seus pais sobre 1994), causando uma “bolha”. A moeda perde o valor, por haver abundância extrema de dinheiro. Quanto mais opções se tem, menor o valor subjetivo de cada uma delas. O mesmo acontece com a informação, segundo Baudrillard.

Conectados em todos os pólos do planeta, temos uma “economia da informação” em que a produção de recursos (informação) é inesgotável e diretamente proporcional à velocidade de comunicação da informação e à quantidade de informação consumida. Quanto mais se lê, mais se observa imagens, maior a quantidade de combinações possíveis na sua cabeça, maior a ansiedade em pôr isso no mundo. Ou seja, a internet é o alicerce da Economia Criativa vindoura.

Ao mesmo tempo, quanto mais informação criada, mais sentido criado. Criamos outras camadas de sentido pra leitura do mundo, imaginamos outros mundos virtualmente possíveis. A aplicativosfera já foi criada, qual a próxima?

Chegamos na crise do sentido, crise de significação do mundo, assim como acontece em qualquer economia inflacionária (seja de informação ou monetária). Mas uma crise de significação das coisas afeta outras necessidades humanas.  Quando alguém é exposto à uma quantidade cada vez maior de informações, são os valores morais desse que vão colidir com a infinidade de outras valorações possíveis.

Com a internet descobrimos outras permutações de valores possíveis, numa fórmula matemática que talvez fosse impossível de colocarmos no papel. E a permutação de valores é ubíqua, atinge todas essas camadas de significação que vivemos hoje. Quanto mais urbanos nos tornamos, mais camadas acrescentamos, mais tecnologia, comidas, QR codes, pessoas, línguas, festas… ansiedade.

Assim os valores que nasceram da escassez vão ser afogados pela nova noção de abundância de informação/sentido. A resposta dos nossos cérebros à novidade é o consumo. Mensal, semanal e diário. Uma roupa nova por semana, um restaurante novo por dia. A experimentação se faz necessária, pra dar conta do excesso de combinações possíveis. “Mais real que o real, é assim que se anula o real”.

Isso é a Implosão do Sentido. É quando culmina a derrocada dos valores antigos pra vir à tona os novos. Tem gente que pira, e o que vem à tona é a esquizofrenia. Não que a nossa geração atualmente sedada por remédios não o seja.

nonsense é a resposta encontrada pela arte atual pra confrontar o desprendimento de sentido das coisas. Depois de estilhaçarmos todas as semióticas possíveis, o que resta é o momento único da sinapse, o estímulo cerebral que dá prazer ou dor, e que pode ser confundido também com o hedonismo. Tudo cada vez mais rápido, mais atômico, mais passageiro e inconstante.

O fim do mundo não é físico, é um processo de confronto de valores. O tempo que passa mais rápido, as expectativas que mudam, os modos de trabalho, a perspectiva de vida, o valor das coisas e o valor do trabalho. As formas de trabalhar a criatividade, a arte, a música. O fim que todo mundo esperava (é sério tem gente que tá esperando isso há anos, desde o bug do milênio), já chegou. Finalmente esse blog pode descansar em paz, celebrando a cultura nonsense que deu origem a ele, tanto na capa quanto na inspiração. Abrace o caos.

5 textos na gaveta

Entre 2009 e 2010 escrevi esses textos, que iam pra um livro (meu primeiro!), mas não rolou. Segue:

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Como em quê acreditar? De si para si, sem ajustes, quebrando a casca. Nunca se escreve, nunca se consegue exprimir algo dali. A escrita é a mentira, é a terceiridade semiótica, é limitar a multiplicidade, é um fragmento. Mas e o quê os outros vão achar quando souberem que nada do que é aqui documentado, dissertado e assinado é de fato verídico?

Suspeita-se que a técnica apurada serve muitas vezes para camuflar a arquitetura frágil do escritor. Quando ele diz que não se expõe, ele realmente não se expõe, por que se ele realmente se expusesse, não seria lido.  Sem leitores não há escritor, somente si. É como aquela história da árvore que cai na floresta, mas ninguém a escuta cair.

Talvez por isso digam que o conto que realmente querem escrever é aquele que ninguém quer ler.

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– É quanto tempo?

– É uma hora.

– Uma hora é muito tempo?

– Não, pior que não. Uma hora é pouquíssimo tempo, em comparação com uma vida inteira.

– É pouco pra você, mas pra minha vida, uma hora é uma eternidade.

– O que você faz do seu tempo pra que ele seja tão custoso a passa?

– Não faço nada, espero ele passar. Quando eu ver, já é chegada a hora da morte.

Jogou o cabelo por trás dos ombros, coçou o nariz e esfregou os olhos, nessa ordem. Ao mesmo tempo um galho estalou no mato, uma janela abriu, um balanço jazia parado e 5 pessoas morriam de câncer ao redor do mundo, segundo as estatísticas.

– Você não se cansa de esperar? Não rola um tédio existencial?

– Não rola mais, faço isso há anos.

– E por que não morrer agora?

– Ainda não é a hora.

– Mas em uma hora dá tempo. A morte dura pouco, é uma questão de fechar os olhos, cruzar as mãos sobre o peito e parar de respirar. Dá tempo.

– Não é a morte que dura pouco tempo, e sim a vida. A morte é uma eternidade.

– A eternidade maior é a morte, se já não existe mais “existir”. Mas há de se ver que a toda hora existe morte. Enquanto se vive, se morre. E quando se morre, se morre só.

– Se a morte é a eternidade, e se morre-se um pouco a cada hora de vida que passa, você quer dizer que…

– A vida é eterna.

Rangendo, as correntes do balanço voltam a funcionar. Algum bebê nasceu acéfalo na Indonésia. É o que dizem as estatísticas. Enquanto isso um polvo com nove cérebros e três corações adivinha os resultados da Copa.

– Paradoxal isso.

– Isso o quê?

– Isso aí, que você acabou de dizer.

– Sabe qual é o sentido da vida?

– Qual?

– Respira.

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A cinco metros da esquina do cruzamento da rua tal com avenida qualquer ela hesitou. Parou ali mesmo, como um burro quando empaca. À medida que a complexidade aumenta deixar-se levar não é o bastante. “Todas as suas ações voltam para você no futuro”, anunciava a capa da revista à mostra na porta do sebo. Aquilo era uma coisa que ela não queria que voltasse de maneira alguma. Sabia que os bumerangues às vezes voltam para os donos quando estes já não os esperam mais.

Acordou dos pensamentos por um instante, viu que o mundo não permanecia imóvel junto à ela. Se esperasse um pouco mais, perderia o controle sobre a sequência dos fatos. Não por acaso, viu uma luz do 3º andar se apagando. Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta para tomar coragem e como que por milagre encontrou o oráculo dos duvidosos: a moeda. Se fosse cara, ficava, se fosse coroa, iria.

“Não!”, pensou já se imaginando indo até lá mas sem contar. Era preciso algo que a fizesse falar e dar a cara pra bater.

Foda-se, já não era necessário tomar uma decisão. Fechava-se o portão da garagem.

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O jardineiro da empresa sempre foi um cara reservado. Falava pouco, funcionário exemplar, nunca chegara atrasado e tinha um trato especial com as plantas, sempre respeitado por todos ali dentro, apesar de sua função simplória não interferir no trabalho do escritório. O gerente achou estranho quando ele chegou e disse “tenho uma coisa pra te falar.”

Se os gerânios precisavam de mais adubo ou se precisava plantar mais tulipas, por que não dizia logo? Esperava agora como o mesmo suspense aquele homem que fazia parte da hierarquia mais baixa da empresa.

A secretária anunciou sua entrada.

“Tenho uma coisa pra te falar.”

“Diga seu Antônio, tenho uma reunião em quinze minutos.”

“To comendo sua mulher.”

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“Além dela não havia ninguém na parada de ônibus.”

O silêncio sufocava e mal dava pra ver o nariz de tão espessa que era a cortina formada pelo nevoeiro. De repente só se ouvia um zangão perambulando em algum jardim alheio. No meio daquele “nada” cinzento, ela parecia um morango nas costas de um elefante. Parecia não querer estar ali, parecia repelir o abraço desajeitado do nevoeiro apenas sendo, com seu trench coat vermelho carmim. Além dela não havia ninguém na parada de ônibus.

Coçou os olhos, reinando absoluta sobre o nevoeiro infinito ao redor, sabe-se lá se para acordar ou se por cansaço. Empertigou-se quando o primeiro ruído de carro desvirginou o silêncio da madrugada.

Só depois que vejo os faróis do carro sumindo na neblina é que saio de onde estava escondido para pegar meu ônibus, agora sozinho.

“trocadilho entre troca, tocador e Creative Commons (CC).”

Faz mais de ano e meio que tô num grupo de gente que leva música mais a sério do que o limite saudável. Um tipo de gente que escuta conversa de DJ amador na balada não usual de uma quinta-feira e descobre desde coletâneas de trilha sonora de pornochanchada dos anos 80 a melodias originais (e gringas!) de clássicos da MPB. Ou que “só” passa o dia pulando por links de blogs gringos sobre música. Esse é o Troccador, “trocadilho entre troca, tocador e Creative Commons (CC)”.

Ou de quem passa num sebo de vinil só pra achar aquele LP do Damião Experiença, o Planeta Lamma (se você não clicou é porque sabe do que eu tô falando.)

Quando o grupo começou tive a ideia inocente de organizar playlists no youtube por ordem cronológica, da primeira postagem à última.

Quando cheguei na 8ª percebi que isso seria humanamente impossível (cada playlist do youtube comporta até 200 vídeos, e a velocidade dessa catalogação NUNCA superaria a velocidade da inteligência coletiva – marota! – na urgência das pessoas em postarem suas músicas favoritas).

Parei, e percebi que a gente tinha MUITA gente, em todo canto do mundo e do país (Colômbia, Brasília, Irlanda, Inglaterra, Itália…) e com conhecimento musical profundo. Tínhamos inclusive músicos, DJs e jornalistas da “mídia especializada”.

Vieram umas ideias de fazer um blog, criar conteúdo a partir do que é postado no grupo, blá blá blá. Acima de tudo, não pode (e não vai!) virar um negócio chato, diversão acima de tudo. Se tu conhece música o suficiente, sabe que a ambição à fama/dinheiro é inversamente proporcional à qualidade da produção, ou tô errado?

Dali se encontra de tudo: samba, cumbia, indie rock, dubstep, moda de viola, e outras obscuridades tipo “a banda de baile do segurança do BESC de Corupá-SC”. Variedade musical. Disse eu uma vez que a música é um vetor cultural-antropológico, que não sei se é verdade, mas acho que ajuda bastante a entender um tempo, um grupo, um movimento de mundo.

Uma vez um amigo do grupo se dispôs genialmente e voluntariamente a montar um app que tocava as músicas do grupo da mais recente pra mais antiga, como uma rádio. Funcionou um tempo, até começarem os bugs e a gente desativar. Mas a ideia era boa. (RIP).

Na verdade essa tagarelice  história toda foi só pra intercalar essas playlists com um sneak preview e você nem precisava ter lido tudo  do que tem no grupo, e pra anunciar que eu e o Igor (mais um dos troccadores) fizemos uma mixtape pro grupo. A primeira, com o que a gente tem de melhor. Como o Mixcloud tá de birra com o WordPress e não tá rolando embed, vai ter que clicar ali na imagem pra rolar. Obrigado e volte sempre😉

Meu querido pé que me aguenta o dia inteiro

Comprei um tênis essa semana. Estamos nos dando bem. Andando – e pra frente – como tem que ser. Parece que fomos feitos um para o outro. Se vamos continuar juntos daqui 10 anos eu não sei. Se não for, não era pra ser.

Vamos juntos até a língua rasgar e a sola deixar que os meus pés fiquem molhados quando quiçá chover em São Paulo. Não poderemos mais tomar banho de chuva.

Quando já não mais sentir sola, nem me sentir em um tênis, e caminhar parecer o ato mais natural, quando meus pés em chamas engatarem em marcha ao que finalmente desponta como um rumo pra vida naquele horizonte, aí vamos nos deixar de lado.

Eu vou seguir andando, enquanto você descansa pendurado atrás da porta ou nos fios emaranhados de algum poste.

“Como se fosse um labirinto” de Ronaldo Correia de Brito

Isso aqui anda meio parado ultimamente – mais por causa do ritmo frenético de trabalho do que pela falta de conteúdo – mas uma vez algum sujeito me disse em algum lugar pra eu sempre dedicar um mínimo do meu tempo a projetos pessoais.

Acho que o mais importante é celebrar a descoberta dessa nova cidade (que é quase nova todo dia) que é São Paulo. Fica aqui um trecho do texto do Ronaldo Correia de Brito publicado na revista Efêmero Concreto #2:

De nada valera os esforços de tornar impermeáveis as fronteiras, elas se moviam como dunas no deserto. Sim, gostava de vigas crescendo em edifícios, mas desgostava–se quando exorbitavam em fortalezas, impedindo o livre trânsito dos homens. Sua gente não devia esquecer as lições dos guetos, jamais levantar novos muros contra a inércia natural do mundo, a lei que garante que na ausência de forças um corpo em repouso continua em repouso, e um corpo em movimento continua em movimento.

A foto é de Buenos Aires, não é de São Paulo, mas é daqui.

La Fe Y Las Montañas

Al principio la Fe movía montañas sólo cuando era absolutamente necesario, con lo que el paisaje permanecía igual a sí mismo durante milenios. Pero cuando la Fe comenzó a propagarse y a la gente le pareció divertida la idea de mover montañas, éstas no hacían sino cambiar de sitio, y cada vez era más difícil encontrarlas en el lugar en que uno las había dejado la noche anterior; cosa que por supuesto creaba más dificultades que las que resolvía.

La buena gente prefirió entonces abandonar la Fe y ahora las montañas permanecen por lo general en su sitio. Cuando en la carretera se produce un derrumbe bajo el cual mueren varios viajeros, es que alguien, muy lejano o inmediato, tuvo un ligerísimo atisbo de fe.

Me ajudou a lembrar de um texto mais antigo.

Os hipsters encontraram seu avô

Depois de ler ‘On The Road’ o Bob Zimmerman pensou “opa, é isso que eu quero”. E foi pra Nova York tentar a vida, antes de virar Dylan. Neal Cassidy, o mortal que inspirou Dean Moriarty, foi motorista de um ônibus que viajava pelos EUA testando LSD com uma banda, e influenciou em algumas composições do Grateful Dead. Os beatniks foram os caras que deram o primeiro sinal de uma contra-cultura emergente na maior potência mundial do século XX.

Quem viu o vídeo da Box sabe o resultado disso.

Agora saiu o filme do livro, e não me arrisco a falar sobre isso. Mas tem uns bons pontos de vista rolando por aí, como a da Paula Taitelbaum:

“Eu vi um filme sobre a sensação universal de ter vinte anos, que me fez chorar no final, assim que a voz do verdadeiro Jack ecoou no cinema e logo que as palavras dele tingiram a tela – I think of Dean Moriarty… “Meninos, eu vi”. Eu vi um filme que tem alma – e nem importa se ela é beat.”

Ou o texto do Ivan Claudio sobre o filme na IstoÉ:

“O enfoque multidirecional resultou em um belo mapeamento das influências do livro sobre áreas tão diversas quanto a literatura, a música, as artes visuais, a moda, o turismo e o comportamento de várias gerações”

E o William Burroughs? Aquele velho safado…

(com o Kurt Cobain)

Não me arrisco a escrever sobre o filme/livro. Um amigo falou que é sobre amizade. Outro disse o seguinte:

O final é sobre a coisa mais dificil na vida que é a morte, deixar morrer, deixar partir… partir; saber que existe tempo pra tudo e que o tempo acaba, o momento passa, a felicidade não dura. Isso é o que ficou mais marcado pra mim no livro: o desapego… que não é o não se apegar, mas é o saber que vai se desapegar, que acaba sendo curtir o momento.

Se aquela guria novinha que vi no metrô lendo as primeiras páginas do livro entender isso, já tá de bom tamanho.

É como se agora os hipsters fossem visitar o avô. Aqueles sórdidos hipsters da América