A grande cidade é uma caixa de peças avulsas.

Disse o antropólogo Gilberto Velho que “a grande cidade permite você perceber e estudar com maior riqueza; que a vida se passa em múltiplos planos, que são vários contextos, diferentes, eventualmente contraditórios, são situações diferentes, e que você transita permanentemente entre mundos, esferas distintas.”

Seriam então as grandes cidades uma síntese do confronto humano, da relação ativo/passiva com o estrangeiro, o estranho, o(s) outro(s). No filme Waking Life há uma cena em que duas pessoas se esbarram e ao invés de reagir com o mecânico “desculpe/por favor/obrigado”, a menina sugere que eles façam algo diferente, algo que o protagonista fala que DH Lawrence chama de “aceitar o confronto entre suas almas.É como libertar os deuses corajosos e inconsequentes que nos habitam.”

Na Carta Capital dessa semana Thomaz Wood Jr. escreveu um texto sobre o crescente número de avulsos que vão populando o mundo ocidental. Segundo ele, nas grandes cidades norte-americanas, 40% das moradias têm um único ocupante. Em Washington e Manhattan, casos extremos, são 50%. E o fenômeno não se restringe aos Estados Unidos. Paris apresenta números superiores a 50% e, em Estocolmo, a taxa chega a 60%. De repente foi dessa pegada, desse fenômeno urbano que o Steve McQueen produziu Shame, aquele filme sobre um cara quarentão bem-sucedido em Nova York, que mora num dos metros quadrados mais caros do mundo, mas não consegue manter uma relação íntima com alguém por mais que um dia. Disse bem um artigo da Obvious Mag:

A intimidade é um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em coisas que não valem a pena.

O “neo-solteirismo” (termo que Matheus Pichonelli usa na resenha sobre o filme na Carta Capital) será uma tendência? Têm pipocado em vários jornais os artigos que mencionam uma tendência em países desenvolvidos a incapacidade de se relacionar intimamente com alguém. É interessante que isso seja o extremo-oposto da prerrogativa das mídias sociais online, que é de compartilhar. Conseguimos então compartilhar digitalmente a privacidade que nos é tão cara, mas não damos conta de compartilhar fisicamente um espaço ou períodos de tempo dedicado ao outro.

Em um artigo publicado originamente no NY Times (e traduzido para o português aqui), foram entrevistados alguns desses adultos que pagam suas contas e não devem satisfação a mais ninguém. Essas pessoas contam que, morar sozinho te dá um controle maior sobre um espaço de intimidade maior. É como quando éramos crianças e brincávamos de “Rei”. A casa daquele que mora completamente só é um reino, não mais um dormitório. Ali naquele espaço você pode andar pelado ou tomar champanhe no banho às duas da manhã, é o que contam os entrevistados.

É assim que vivem os hikikomoris no Japão. Hikikomoris são pessoas que vivem em extremo isolamento doméstico, chegando a não ter contato com ninguém. O curta “Shaking Tokyo”, de Joon-ho Bong conta a vida de um cara que vive nesse extremo do individualismo.

Disseram-me uma vez que a Alemanha é um dos países ocidentais que menos usa o Facebook. E lá tem uns lagos públicos que você pode tomar banho pelado, se quiser. Não há constrangimento algum nisso. Fosse no Brasil, seria caso de polícia. Mas não somos nós que deixamos a vida aberta como um livro nas mídias sociais, expondo nossa intimidade à revelia? E você vai alegar que ficar pelado na frente de outras pessoas é falta de privacidade?

Na nossa cabeça urbana ocidental, a maioria das nossas relações hoje é contratual, exceto na internet. A relação de intimidade e privacidade é invertida. E ao mesmo tempo em que buscamos pela aceitação em grupos os quais nos identificamos – que o pessoal da Box1824 definiu como uma tendência de neo-tribalismo – na verdade não conseguimos uma identificação com grupo que não seja contratual. É uma crise de identidade natural do ser humano, mas esquecida de ser percebida como natural.

A bem da verdade, é natural da juventude buscar o abrigo das tribos, assim como é natural buscar pelo isolamento à medida que se envelhece. Só depende da aceitação, que seria nadar contra a corrente, essa da publicidade e do mercado que faz todos terem um pouco de Peter Pan.

Uma coisa é sabida, e comentada no final do artigo do New York Times: “quanto mais tempo ela vive sozinha, menos flexível ela se torna.”

Nada mais que a natureza seguindo seu fluxo.

Uma resposta em “A grande cidade é uma caixa de peças avulsas.

  1. gostei muito da sobriedade analítica do seu texto e pirei nas referências, gosto muitíssimo dos três filmes e achei que você os emendou no contexto de uma forma muito inteligente.

    Tenho refletido bastante sobre essa questão do facebook e do não-facebook, às vezes acho que as pessoas o levam muito a sério, como reclamar da nova time line e chegar a fazer protestos absurdos em relação a isso, pedindo likes e compartilhamentos em uma foto de protesto sobre o tema, não sei, deveria ser algo mais simples, ao mesmo passo que acho o site útil para um interação anteriormente inexistente, eu não estou certa se a gente era mesmo mais próximo antes do uso das redes sociais, eu por exemplo tive uma infância um tanto quanto solitária e não sei como ela teria sido se tivesse tido um facebook nela, sinto que não teria sido muito positivio mas não sei, enfim, meus pensamentos sobre o tema ainda são muito contraditórios e confusos.
    E mais que casas de pessoas avulsas, carros com elas me dão ainda mais agonia, pessoas avulsas deveriam por obrigatoriedade ter direito apenas a andar de bicicleta, eu acho que até mesmo famílias inteiras deveriam apenas andar de bicicleta, aquelas com muitos lugares, ia ser no mínimo uma cidade mais divertida, imagine as avulsas, deveria ser lei uma coisa dessa.
    Absurdo mesmo é eu escrever um novo texto em um comment, sorry.

    Enfim, texto jóia.

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