5 textos na gaveta

Entre 2009 e 2010 escrevi esses textos, que iam pra um livro (meu primeiro!), mas não rolou. Segue:

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Como em quê acreditar? De si para si, sem ajustes, quebrando a casca. Nunca se escreve, nunca se consegue exprimir algo dali. A escrita é a mentira, é a terceiridade semiótica, é limitar a multiplicidade, é um fragmento. Mas e o quê os outros vão achar quando souberem que nada do que é aqui documentado, dissertado e assinado é de fato verídico?

Suspeita-se que a técnica apurada serve muitas vezes para camuflar a arquitetura frágil do escritor. Quando ele diz que não se expõe, ele realmente não se expõe, por que se ele realmente se expusesse, não seria lido.  Sem leitores não há escritor, somente si. É como aquela história da árvore que cai na floresta, mas ninguém a escuta cair.

Talvez por isso digam que o conto que realmente querem escrever é aquele que ninguém quer ler.

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– É quanto tempo?

– É uma hora.

– Uma hora é muito tempo?

– Não, pior que não. Uma hora é pouquíssimo tempo, em comparação com uma vida inteira.

– É pouco pra você, mas pra minha vida, uma hora é uma eternidade.

– O que você faz do seu tempo pra que ele seja tão custoso a passa?

– Não faço nada, espero ele passar. Quando eu ver, já é chegada a hora da morte.

Jogou o cabelo por trás dos ombros, coçou o nariz e esfregou os olhos, nessa ordem. Ao mesmo tempo um galho estalou no mato, uma janela abriu, um balanço jazia parado e 5 pessoas morriam de câncer ao redor do mundo, segundo as estatísticas.

– Você não se cansa de esperar? Não rola um tédio existencial?

– Não rola mais, faço isso há anos.

– E por que não morrer agora?

– Ainda não é a hora.

– Mas em uma hora dá tempo. A morte dura pouco, é uma questão de fechar os olhos, cruzar as mãos sobre o peito e parar de respirar. Dá tempo.

– Não é a morte que dura pouco tempo, e sim a vida. A morte é uma eternidade.

– A eternidade maior é a morte, se já não existe mais “existir”. Mas há de se ver que a toda hora existe morte. Enquanto se vive, se morre. E quando se morre, se morre só.

– Se a morte é a eternidade, e se morre-se um pouco a cada hora de vida que passa, você quer dizer que…

– A vida é eterna.

Rangendo, as correntes do balanço voltam a funcionar. Algum bebê nasceu acéfalo na Indonésia. É o que dizem as estatísticas. Enquanto isso um polvo com nove cérebros e três corações adivinha os resultados da Copa.

– Paradoxal isso.

– Isso o quê?

– Isso aí, que você acabou de dizer.

– Sabe qual é o sentido da vida?

– Qual?

– Respira.

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A cinco metros da esquina do cruzamento da rua tal com avenida qualquer ela hesitou. Parou ali mesmo, como um burro quando empaca. À medida que a complexidade aumenta deixar-se levar não é o bastante. “Todas as suas ações voltam para você no futuro”, anunciava a capa da revista à mostra na porta do sebo. Aquilo era uma coisa que ela não queria que voltasse de maneira alguma. Sabia que os bumerangues às vezes voltam para os donos quando estes já não os esperam mais.

Acordou dos pensamentos por um instante, viu que o mundo não permanecia imóvel junto à ela. Se esperasse um pouco mais, perderia o controle sobre a sequência dos fatos. Não por acaso, viu uma luz do 3º andar se apagando. Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta para tomar coragem e como que por milagre encontrou o oráculo dos duvidosos: a moeda. Se fosse cara, ficava, se fosse coroa, iria.

“Não!”, pensou já se imaginando indo até lá mas sem contar. Era preciso algo que a fizesse falar e dar a cara pra bater.

Foda-se, já não era necessário tomar uma decisão. Fechava-se o portão da garagem.

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O jardineiro da empresa sempre foi um cara reservado. Falava pouco, funcionário exemplar, nunca chegara atrasado e tinha um trato especial com as plantas, sempre respeitado por todos ali dentro, apesar de sua função simplória não interferir no trabalho do escritório. O gerente achou estranho quando ele chegou e disse “tenho uma coisa pra te falar.”

Se os gerânios precisavam de mais adubo ou se precisava plantar mais tulipas, por que não dizia logo? Esperava agora como o mesmo suspense aquele homem que fazia parte da hierarquia mais baixa da empresa.

A secretária anunciou sua entrada.

“Tenho uma coisa pra te falar.”

“Diga seu Antônio, tenho uma reunião em quinze minutos.”

“To comendo sua mulher.”

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“Além dela não havia ninguém na parada de ônibus.”

O silêncio sufocava e mal dava pra ver o nariz de tão espessa que era a cortina formada pelo nevoeiro. De repente só se ouvia um zangão perambulando em algum jardim alheio. No meio daquele “nada” cinzento, ela parecia um morango nas costas de um elefante. Parecia não querer estar ali, parecia repelir o abraço desajeitado do nevoeiro apenas sendo, com seu trench coat vermelho carmim. Além dela não havia ninguém na parada de ônibus.

Coçou os olhos, reinando absoluta sobre o nevoeiro infinito ao redor, sabe-se lá se para acordar ou se por cansaço. Empertigou-se quando o primeiro ruído de carro desvirginou o silêncio da madrugada.

Só depois que vejo os faróis do carro sumindo na neblina é que saio de onde estava escondido para pegar meu ônibus, agora sozinho.

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Meu querido pé que me aguenta o dia inteiro

Comprei um tênis essa semana. Estamos nos dando bem. Andando – e pra frente – como tem que ser. Parece que fomos feitos um para o outro. Se vamos continuar juntos daqui 10 anos eu não sei. Se não for, não era pra ser.

Vamos juntos até a língua rasgar e a sola deixar que os meus pés fiquem molhados quando quiçá chover em São Paulo. Não poderemos mais tomar banho de chuva.

Quando já não mais sentir sola, nem me sentir em um tênis, e caminhar parecer o ato mais natural, quando meus pés em chamas engatarem em marcha ao que finalmente desponta como um rumo pra vida naquele horizonte, aí vamos nos deixar de lado.

Eu vou seguir andando, enquanto você descansa pendurado atrás da porta ou nos fios emaranhados de algum poste.

Duas dicas pra VIDA

Duas premissas básicas pra direcionar a vida. Quase tudo que eu tenho feito se baseia nelas:

1. Como vai ser daqui a 10 anos?

Com a primeira eu quero dizer: Mudança. A mudança é a lei da vida, dizia o I Ching. Então se tudo muda, saiba que as coisas daqui a dez anos não serão como as conhecemos hoje. Se não por elas, por nós.

Dez anos não são necessariamente 10 anos. Pode ser 1 mês ou 50 anos. Acredite, tudo muda com o tempo. A barba cresce, os cílios caem, as pedras viram areia, e a areia vira pedra. Quanto tempo dura um horizonte no deserto? Quantas ideias lhe passam pela cabeça enquanto você tenta tirar aquele pedaço de carne que ficou entre os dentes depois do almoço? O recheio do tempo é o que diz quanto tempo o tempo realmente dura. E o Einstein com sua relatividade.

Sabendo que nada permanece inalterado, lembre-se de que alguma coisa vai mudar antes do “fim da história”. A maioria das pessoas trabalha com cenários atuais. Isso é estar preparado pro pulo do gato, pro bote da cobra, ou seja lá como você prefere chamar esse plot point da vida. Isso é ser capaz de conceber uma algo que ainda não tomou forma, é entender o processo e como ele vai levar as coisas até um ponto culminante que você imaginou. Mas cuidado, a ideia disso tudo é virtual, é só projeto. E projetos podem mudar no meio do caminho, tomar outros rumos, porque em “10 anos” tudo muda.

O que parece certo hoje amanhã já não vai parecer tão certo, e você vai reconsiderar algumas opiniões que pareciam ser tão ridículas. Não são. Depois de passar anos ouvindo metal e odiando “pagode”, você se pega fazendo aula de gafieira. “Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.”

2. E se fosse o contrário?

Agora, e se fosse o contrário? E se o que eu imaginava pra dez anos fosse o inverso? Essa pergunta serve pra absolutamente qualquer coisa na vida.

Primeiro por ver o outro lado. Eu comumente uso isso em relação às pessoas: e se fosse eu no lugar dele? Se essa situação fosse comigo, será que eu faria da mesma forma? Por que ele age assim? Se eu tivesse o mesmo background dele, eu faria diferente? Em 10 minutos (espero que não demore 10 anos pra acontecer isso com você) você se pega pensando sobre qualquer situação como um todo, sem se apegar às tuas perspectivas. Essa é a diplomacia do indivíduo, que pela empatia ajuda a resolver essas pequenas guerras diárias, de conflitos por interesse.

Pensar no contrário da situação te leva ao outro extremo, mas não é ao extremo que você deve se ater, mas à “escala likert” ali no meio. É o que leva de um extremo ao outro, o 180º da vida. Olhar pros lados, sabe? Entender que existem tantas possibilidades e coisas a serem vistas quanto um passeio de Google Street View.

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No fim, é tudo sobre projeção de cenários. Projetar cenários futuros e dar um giro de 360º por eles. A vida é isso aí, como abrir uma porta no final de um corredor estreito, apertado, e dar de cara com um abismo.

(a primeira imagem é daqui e a segunda é daqui.)

meu passarinho

Te sigo a duras penas, passarinho.
Foi o vento que me contou da tua miudeza, fez as folhas conversarem e abriu brecha pra ouvir o cochicho.
Passei horas no breu, esperando silenciosamente tu acordares pra te aprender.
Mas não consigo entender nada.
Subo o tom do grunhido pra falar com essa tua voz sem dono, e quando tu apareces me encarando, perguntando se entendi, eu chego mais perto.

Dessa vez tu voaste mais alto, pra não sufocar no meu concreto.
Isso é sinal de que ainda não entendi nada.

(talvez porque Drummond faria aniversário hoje.)

Eu nem sabia que podia ser “ombudsman do universo”

Com o tempo vamos deixando pra trás as antigas relações hierárquicas de trabalho, de departamentos que não se conversam passamos para uma grande rede colaborativa, ampliando o escopo criativo, aproveitando os indivíduos como potências e, sobretudo, canalizando aquela paixão que leva alguém a passar dez anos fazendo algo sem grandes recompensas financeiras.

Não é pelo dinheiro que fazemos isso, mas pelo simples prazer de fazer algo que se gosta. Quando isso acontece, feriados e final de semana deixam de ser uma fuga do “trabalho” pra ser um respiro no processo (o melhor é jogar isso na cara daqueles chatos que falam de trabalho=tripalho). Mil vezes um trabalho que você goste e se realize (sendo assim, deixando de se encaixar na categoria “trabalho”), do que ganhar na mega sena.

Há algum tempo eu faço umas coisas, meio no empirismo, meio sem pensar, e hoje me dou conta de que são aptidões desenvolvidas a partir de algumas paixões minhas: pessoas, internet, caos. Como é difícil categorizar gostos aleatórios eu renomeei algumas das minhas “funções sociais” (tipo o cargo “diretor de whatever“), coisas que eu nem sabia que eu podia ser:

Camaleão Social: É permitir-se mudar e não se apegar às formas nem às ideias.  Me assumo leigo para evitar os vícios. A curiosidade mantém esse trânsito pelas culturas e pessoas. Também chamam de “stay foolish, stay hungry”.

Redator pra Web: Talvez minha única atividade “séria”. Disposição pra “sentar e conversar” é o primeiro dote. A internet é uma grande conversa, tem que saber dialogar. E o diálogo é multimídia: usa texto, vídeo, áudio, imagem, e os hiperlinks. O redator pra web capitaneia o navegar pelo oceano de informação da internet; saber montar as conexões pra tornar isso possível é imprescindível. (post atualizado: larguei mão da redação e tô pegando planejamento agora. a quem interessar possa.)

Designer de Convívio: Apresentar pessoas novas às pessoas velhas, tendo ideias novas a partir das ideias velhas. Deu pra entender? Uma das coisas que eu acho mais legal de fazer na VIDA é agrupar pessoas com ideias semelhantes e/ou hiper-opostas. Conecte os pontos entre os seus amigos, promova o embate de ideias entre eles. A analogia visual disso fica entre uma constelação e uma colcha de retalhos social.

Ombudsman do Universo: Ombudsman é o cara que ouve as críticas e sugestões. É a ouvidoria. Então, recebo as energias cósmicas a fim de uma melhora na autocrítica e nos serviços prestados à comunidade galática. Enfim, ligar o shuffle da vida.

Isso tudo tem a ver com meu outro post “reajuste de expectativas” também.

(fotos da Ana Cabaleiro)

Tu quer solar comigo?

Por Chaplin, a vida seria “um palco de teatro que não admite ensaios”.

O drama comendo solto ali em cima, a vida acontecendo na velocidade do Tom perseguindo o Jerry e os músicos tocando no fosso de orquestra. O elenco se confundindo entre espetáculo e espectador, sem pausa. Não há nenhum interstício entre os atos, um começa antes do outro acabar.

Ainda que a sincronia torne essa epopeia (que é a vida) uma coisa ainda mais bonita, me deu vontade de solar. Um monólogo cabeça vale mais do que mil figurantes em cima do palco. É isso.

Tu quer solar comigo?

(ilustração de Chris Appelhans)

“você vai pra onde agora?”

Começava a esquentar demais e o asfalto enganava os olhos. O chão chegava a crepitar.

– Tá, e você vai pra onde agora?

– Acho que eu vou praquele lugar ensolarado, que aquele boliviano falou pra gente uma vez, lembra? Um trecho disso tudo tem que acontecer lá.

– Então faz o seguinte, leva essas sementes de girassol com você. Uma tradição indígena diz que eles trazem sorte em lugares ensolarados. Mas cuidado à noite, à noite eles não trazem sorte.

– Me ajuda com as malas?

– Claro. Levo elas pra você.

– Não, eu quero abrir todas elas e deixar por aqui. Pegue minhas coisas quem quiser.

– E não vai levar nada consigo?

– Vou levar um punhado de sementes de girassol. Agora vou ter vento fresco, calor nas costas e um bocado de sorte. É o suficiente pra um lugar ensolarado.

O ônibus desponta na esquina. Os dois se riem um do outro. Meses depois foi encontrada uma floresta de cabeças amarelas seguindo o sol, em algum lugar onde ele alcançava.

(ilustração do Matt Furie)