Karma Repair Kit & stuff

Saldo de uma semana cabulosa, daquelas que te faz repensar a vida toda (mais uma):

Karma Repair Kit:
Items 1-4

1. Get enough food to eat,

and eat it.
2. Find a place to sleep where it is quiet,
and sleep there.

3. Reduce intellectual and emotional noise
until you arrive at the silence of yourself,
and listen to it.

4.

by Richard Brautigan

“but when you kiss a dollar bill, it doesn’t kiss you back”

Foram duas coisas que seguraram a onda.

Enjoy yourself.

“quem tiver de sapato não sobra”

Eu não sou muito ligado em moda, embora reconheça sua importância como vetor cultural e etc. A moda é sobrevalorizada cada vez mais, como a capa mais exterior da construção identitária. Mais importante que ela, só o perfil no facebook, se pá (blargh).

Hoje li uma entrevista curta com o Herchcovitch sobre o SPFW e achei interessante uma coisa que ele fala no final, saca aí:

E quem é sua cliente?

Eu faço a roupa e quem quiser compra, jogando a verdade, é isso. Já tentei fazer essa coisa de ” estilo da brasileira”, um certo padrão, mas não tenho mão para isso. Começo a fazer e sai outra coisa. Poucas marcas sabem desse gosto geral do Brasil. Isso não é um problema, pois o país é grande e há variedade de gostos. Minha marca conquistou seu espaço. Se minha roupa fosse periguete, teria mais clientes, mas não sei fazer. O lance é saber ajustar expectativas.

Peraí, mas foi isso que o Alexandre Matias do Trabalho Sujo falou sobre o mercado musical ano passado num evento em Florianópolis, o qual eu participei.

E dali saiu o título do meu post “reajuste de expectativas” e… ao que tudo indica, caminhamos pra uma implosão mermo. Como diria Sganzerla em “O Bandido da Luz Vermelha”, de 1968:

O terceiro mundo vai explodir, e quem tiver de sapato não sobra.

(a imagem acima é do colega Romeu SIlveira, que por acaso trampa(va) no FFW.)

Desprendendo o sentido

(…)embora a razão tenha trazido para o homem a capacidade de dominar o mundo, especialmente através da ciência e da técnica, trouxe também consequências negativas: a perda de sentido e a perda de liberdade.

Max Weber.

Do livro abaixo (citado numa conversa do facebook):

A fome da fama.

A vida pública é uma característica fundamental da celebridade (ou: pessoa conhecida em muitos círculos sociais, mesmo sem um vínculo direto, geralmente pela mediatização da imagem).

Quando sua identidade vira um modelo passível de ser replicado por aí, seus hábitos podem virar interesse de uma (ou mais) comunidades as quais você não tem vínculos diretos. E por quê? Por causa da empatia (consequência da sua simpatia) que existe entre os membros dessa comunidade e a imagem que é veiculada de você. Isso pode ser explicado pelos mesmos motivos do storytelling: é o storytelling da sua vida.

Pois bem, e o que aconteceria se o poder de mediatização de si estivesse ao alcance de qualquer com uma webcam, um computador e uma conexão com a internet? Opa…

Disse bem Guy Debord quando sentenciou: “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.”

Nos comunicamos pra manter um fluxo contínuo de informação a fim de construir nossas identidades. Tudo o que é lido, escutado, e percebido pelo nosso cérebro é decodificado e  re-codificado a fim de dar um sentido àquilo pra dar um novo sentido à informação e transformar isso em conhecimento. Essa recodificação é o que constitui nossa identidade.

Hoje, essa comunicação acontece boa parte do tempo por telas. É a relação entre nós e as telas, que nos servem como espelhos: vejo algo e sinto necessidade de decodificar aquilo por empatia ou estranheza. É tudo uma relação do cérebro com o exterior.

Ultimamente estamos nos dando conta de que essa relação com os outros funciona de forma hierárquica, mas horizontal, de acordo com o poder de influência que se consegue nesse ou naquele grupo. É o poder da “transação social”, de conseguir transitar por estes círculos sociais negociando laços sociais, afrouxando uns pra apertar uns outros (não conseguimos manter mais que 150, não adianta.)

Mesmo em rede, há competição (é um processo social indissociável das redes, junto com conflito e cooperação). Mas competição pelo quê? Pelo poder de influência social no maior número de círculos possível, o que seria possível pelo controle da própria imagem em circulação, moeda de troca nas comunidades humanas atualmente. Olhando por esse viés, Narciso ainda era muito ingênuo ao reservar para si o direito de admirar a própria imagem. Bem, talvez Carolina Dieckmann também.

(Duas referências sobre o assunto: “A Espetacularização da Identidade Virtual nas Redes Sociais” e a revista Trip desse mês de maio de 2012, cuja matéria da capa, sobre anonimato, é do José Arbex Jr. Anexo o link assim que for liberada no site.)

(A imagem é do Eduardo Sancinetti.)

“Beck (ou a representação da música popular americana)” por Matias Cobbert

Faço parte de um grupo no facebook que tem como finalidade trocar ideia sobre música (falarei mais sobre ele qualquer hora). Uma pessoa do grupo postou um texto que um professor da faculdade escreveu sobre a relevância de Beck Hansen pra música pop atual. Segue abaixo um trecho do texto de Matias Cobbert, professor do @indiedadepre:

(…) Aqui estou. É uma tarde agradável. Calçadas se esticam um pouco para dentro de ruas. Pedestres formam bojos nas silhuetas imutáveis das sombras dos prédios no asfalto. E eu vejo jovens para cada canto que olho, nunca tivemos tantos jovens como agora. Como trovões, suas vozes ao redor irrompem no mais ensurdecedor barulho e se calam em estado de potencialidade. Olhares intencionalmente violentos, punhos meio mísseis explodem contra esdrúxulas mesas de bares. Corações abertos ao novo mundo que giganteia vorazmente lá fora. Há uma bruta massa pluricelular, de corpos magistralmente desajeitados e rostos sedutoramente perdidos, vibrando objetos de múltiplas funções por aí e nos mirando com aqueles olhos enlouquecidos e ainda totalmente abertos. O mundo é jovem. (…)

O texto completo tá lá no blog do Indie da Depressão. É grande, mas vale imprimir pra ler tudo. Vale muito.

Quanto mais internet mais inovação?

A internet é a atualização, e quanto mais se dissemina a banda larga por aí, se dissemina também a cultura da atualização. A atualização do status; de vida; de fotos no Instagram. À medida que a vida muda, atualizamos nossas identidades online, reconstruindo-as a partir do nosso consumo diário, seja de informação, bens ou serviços. Para isso, contamos com a ajuda do aparato tecnológico, análogo aos tentáculos de um polvo.

Se é tudo novo na nossa vida e na vida dos outros, então temos de tudo para NOS atualizar. Ou, inovar. A inovação é parte da cultura da atualização. Sem a busca pelo novo  não há o que atualizar. Inovação não é mais um diferencial, é prerrogativa de sobrevivência social.

Há a possibilidade de nos tornarmos mais criativos com o tempo, uma vez que a busca pela novidade é o novo “matar um leão por dia”. No entanto, quem nos garante criatividade quando nos escondemos involuntariamente das estranhezas que nos aguardam? Não era essa a promessa da web 3.0.

A grande cidade é uma caixa de peças avulsas.

Disse o antropólogo Gilberto Velho que “a grande cidade permite você perceber e estudar com maior riqueza; que a vida se passa em múltiplos planos, que são vários contextos, diferentes, eventualmente contraditórios, são situações diferentes, e que você transita permanentemente entre mundos, esferas distintas.”

Seriam então as grandes cidades uma síntese do confronto humano, da relação ativo/passiva com o estrangeiro, o estranho, o(s) outro(s). No filme Waking Life há uma cena em que duas pessoas se esbarram e ao invés de reagir com o mecânico “desculpe/por favor/obrigado”, a menina sugere que eles façam algo diferente, algo que o protagonista fala que DH Lawrence chama de “aceitar o confronto entre suas almas.É como libertar os deuses corajosos e inconsequentes que nos habitam.”

Na Carta Capital dessa semana Thomaz Wood Jr. escreveu um texto sobre o crescente número de avulsos que vão populando o mundo ocidental. Segundo ele, nas grandes cidades norte-americanas, 40% das moradias têm um único ocupante. Em Washington e Manhattan, casos extremos, são 50%. E o fenômeno não se restringe aos Estados Unidos. Paris apresenta números superiores a 50% e, em Estocolmo, a taxa chega a 60%. De repente foi dessa pegada, desse fenômeno urbano que o Steve McQueen produziu Shame, aquele filme sobre um cara quarentão bem-sucedido em Nova York, que mora num dos metros quadrados mais caros do mundo, mas não consegue manter uma relação íntima com alguém por mais que um dia. Disse bem um artigo da Obvious Mag:

A intimidade é um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em coisas que não valem a pena.

O “neo-solteirismo” (termo que Matheus Pichonelli usa na resenha sobre o filme na Carta Capital) será uma tendência? Têm pipocado em vários jornais os artigos que mencionam uma tendência em países desenvolvidos a incapacidade de se relacionar intimamente com alguém. É interessante que isso seja o extremo-oposto da prerrogativa das mídias sociais online, que é de compartilhar. Conseguimos então compartilhar digitalmente a privacidade que nos é tão cara, mas não damos conta de compartilhar fisicamente um espaço ou períodos de tempo dedicado ao outro.

Em um artigo publicado originamente no NY Times (e traduzido para o português aqui), foram entrevistados alguns desses adultos que pagam suas contas e não devem satisfação a mais ninguém. Essas pessoas contam que, morar sozinho te dá um controle maior sobre um espaço de intimidade maior. É como quando éramos crianças e brincávamos de “Rei”. A casa daquele que mora completamente só é um reino, não mais um dormitório. Ali naquele espaço você pode andar pelado ou tomar champanhe no banho às duas da manhã, é o que contam os entrevistados.

É assim que vivem os hikikomoris no Japão. Hikikomoris são pessoas que vivem em extremo isolamento doméstico, chegando a não ter contato com ninguém. O curta “Shaking Tokyo”, de Joon-ho Bong conta a vida de um cara que vive nesse extremo do individualismo.

Disseram-me uma vez que a Alemanha é um dos países ocidentais que menos usa o Facebook. E lá tem uns lagos públicos que você pode tomar banho pelado, se quiser. Não há constrangimento algum nisso. Fosse no Brasil, seria caso de polícia. Mas não somos nós que deixamos a vida aberta como um livro nas mídias sociais, expondo nossa intimidade à revelia? E você vai alegar que ficar pelado na frente de outras pessoas é falta de privacidade?

Na nossa cabeça urbana ocidental, a maioria das nossas relações hoje é contratual, exceto na internet. A relação de intimidade e privacidade é invertida. E ao mesmo tempo em que buscamos pela aceitação em grupos os quais nos identificamos – que o pessoal da Box1824 definiu como uma tendência de neo-tribalismo – na verdade não conseguimos uma identificação com grupo que não seja contratual. É uma crise de identidade natural do ser humano, mas esquecida de ser percebida como natural.

A bem da verdade, é natural da juventude buscar o abrigo das tribos, assim como é natural buscar pelo isolamento à medida que se envelhece. Só depende da aceitação, que seria nadar contra a corrente, essa da publicidade e do mercado que faz todos terem um pouco de Peter Pan.

Uma coisa é sabida, e comentada no final do artigo do New York Times: “quanto mais tempo ela vive sozinha, menos flexível ela se torna.”

Nada mais que a natureza seguindo seu fluxo.