Caos, criatividade, desfoque e maconha.

Os cientistas já disseram: o caos é o pai da criatividade.

A criatividade é o ato de enxergar o diferente, re-significar as coisas à revelia. Ou seja, recodificar o mundo.

Diagrama de Chamos, Caos, Ordem e Controle

Tomar refrigerante de canudinho é um exercício de equilíbrio: você faz vácuo na boca pra que o líquido se equalize na pressão atmosférica. A isso chamamos de “entropia”, que é uma propriedade geral do universo. É um processo orgânico infinito, vai e volta, desorganiza o que tava quase acabando de se arrumar, basicamente porque todas as peças que o formam são autônomas; são bilhões de fatores que nunca terminam de se re-organizar.

É assim que funciona o pensamento. Não há criatividade em uma estrutura estática e permanente. Aliás, a permanência não tem muito a ver com criatividade.

“Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de ouvir o outro. Ela só fala, não ouve mais. Quem encontra a verdade, só fala.”

E assim funcionam os gigantes corporativos que crêem ter encontrado uma verdade.

Com verdade não há problemas; sem problemas não há caos; sem o caos não há chance pro novo, porque o que há já basta. E ao contrário disso, funciona a serendipidade, as descobertas feitas “por acaso” (e o acaso já é irmanado do caos). Como provocar o acaso?

Costumo relacionar o uso de drogas (lícitas e ilícitas) ao foco atencional. Recomenda-se ao sujeito que costuma sonhar com o trabalho que ele faça uso de algumas (dá-le ritalina e outros). Ou o happy-hour, já impregnado na nossa cultura. Ou fumar um baseado, que também é válido. O objetivo em consumir essas substâncias é o mesmo: render seu cérebro, relaxando o seu foco atencional, que fica cada vez mais difuso e permite ao seu cérebro abrir-se às outras demandas cognitivas. Podemos chamar isso de abrir-se ao caos.

o design thinking sugere “desmontar” os problemas antes de tratar deles

Em uma entrevista, Carlos Castaneda falou sobre o uso de psicotrópicos no xamanismo. Ele esclarece que, como qualquer homem urbano e ocidental, ele era cheio de crenças e paradigmas que não o permitiriam ver o mundo de outra forma. Portanto, pra ele foi preciso fazer o uso destas substâncias pra “desfocar” o mundo e ressignificá-lo.

Fazendo uma analogia visual: pergunte a um míope como ele vê o mundo sem óculos. Obviamente, tudo desfocado. Quando “desfocamos” nossa atenção, portanto, ficamos míopes ao mundo, provocando uma redescoberta do mundo.

Abrir-se ao caos é permitir que ao inesperado se interponha no seu percurso diário, e não necessariamente fica atrelado ao uso de “distorcedores de realidade” (embora o Mini e Michel Maffesoli provam por A + B que ambientes caóticos de reunião de pessoas como bares e cafés colaboram MUITO pra criatividade).

Há controvérsias: O Tiago Doria já cantou a bola sobre o poder criativo dos tímidos e dos introvertidos. Agora saiu na Folha uma reportagem com bastante conteúdo sobre isso.

Mesmo assim, seja sozinho ou em bando, abrir-se ao novo sempre favorece a criatividade.

Eu nem sabia que podia ser “ombudsman do universo”

Com o tempo vamos deixando pra trás as antigas relações hierárquicas de trabalho, de departamentos que não se conversam passamos para uma grande rede colaborativa, ampliando o escopo criativo, aproveitando os indivíduos como potências e, sobretudo, canalizando aquela paixão que leva alguém a passar dez anos fazendo algo sem grandes recompensas financeiras.

Não é pelo dinheiro que fazemos isso, mas pelo simples prazer de fazer algo que se gosta. Quando isso acontece, feriados e final de semana deixam de ser uma fuga do “trabalho” pra ser um respiro no processo (o melhor é jogar isso na cara daqueles chatos que falam de trabalho=tripalho). Mil vezes um trabalho que você goste e se realize (sendo assim, deixando de se encaixar na categoria “trabalho”), do que ganhar na mega sena.

Há algum tempo eu faço umas coisas, meio no empirismo, meio sem pensar, e hoje me dou conta de que são aptidões desenvolvidas a partir de algumas paixões minhas: pessoas, internet, caos. Como é difícil categorizar gostos aleatórios eu renomeei algumas das minhas “funções sociais” (tipo o cargo “diretor de whatever“), coisas que eu nem sabia que eu podia ser:

Camaleão Social: É permitir-se mudar e não se apegar às formas nem às ideias.  Me assumo leigo para evitar os vícios. A curiosidade mantém esse trânsito pelas culturas e pessoas. Também chamam de “stay foolish, stay hungry”.

Redator pra Web: Talvez minha única atividade “séria”. Disposição pra “sentar e conversar” é o primeiro dote. A internet é uma grande conversa, tem que saber dialogar. E o diálogo é multimídia: usa texto, vídeo, áudio, imagem, e os hiperlinks. O redator pra web capitaneia o navegar pelo oceano de informação da internet; saber montar as conexões pra tornar isso possível é imprescindível. (post atualizado: larguei mão da redação e tô pegando planejamento agora. a quem interessar possa.)

Designer de Convívio: Apresentar pessoas novas às pessoas velhas, tendo ideias novas a partir das ideias velhas. Deu pra entender? Uma das coisas que eu acho mais legal de fazer na VIDA é agrupar pessoas com ideias semelhantes e/ou hiper-opostas. Conecte os pontos entre os seus amigos, promova o embate de ideias entre eles. A analogia visual disso fica entre uma constelação e uma colcha de retalhos social.

Ombudsman do Universo: Ombudsman é o cara que ouve as críticas e sugestões. É a ouvidoria. Então, recebo as energias cósmicas a fim de uma melhora na autocrítica e nos serviços prestados à comunidade galática. Enfim, ligar o shuffle da vida.

Isso tudo tem a ver com meu outro post “reajuste de expectativas” também.

(fotos da Ana Cabaleiro)

‘vai que’

O fator ‘elemento surpresa’ é mais conhecido pelo nome de ‘vai que’. Você está no ponto de ônibus e ‘vai que’ aquela gatinha sentada ali do seu lado vem conversar com você sobre a banda que você tá ouvindo no mp3 player (‘vai que’ ela curte Radiohead né?) Ao mesmo tempo, ‘vai que’ antes de você dizer qualquer coisa chega o ônibus dela e você nem soube se ela também ‘descurtiu’ o ‘King Of Limbs’.

Esse é o elemento surpresa, princípio básico de qualquer ambiente sujeito à casualidade, como o nosso.

É por não saber o que vai acontecer que desenvolvemos a racionalidade, pra tentar prever com alguns dias de antecedência se vai chover ou não e se devo usar calça ou bermuda. Quando aplica-se isto a eventos ou objetos inanimados, é possível conseguir fazer uma previsão com alguma margem de erro do que vai acontecer ou não. Quando você tenta aplicar isso às pessoas, a coisa é mais complicada. Dizia o Freud que era possível fazer um mapeamento da psiquê das pessoas e seus comportamentos, mas é praticamente impossível o fazer quando você fala de um grupo de pessoas. Quais são as chances de você saber como tal pessoa vai se portar diante de um contexto x com indivíduo y?

Mas parecem que as coisas começam a mudar de rumo, ao menos no mundo virtual. A otimização algoritmíca dos mecanismos de busca é um agravante. A otimização social já é um pouco diferente. Ferramentas como o Hunch ou o Get Glue servem pra tentar entender seus gostos e preferências e lhe indicar conteúdo na web de acordo com essas preferências individuais. Isso me leva a questionar onde fica o fator casualidade nisso tudo (que é totalmente a ver com ‘serendipidade’ comentado no post da TechCrunch). Permitir que um robô escolha por você os assuntos de relevância, levando em consideração apenas suas preferências e gostos não é comparável a buscar sempre as mesmas opiniões de um único veículo de comunicação? Parece que os círculos sociais se fecham, o que rola nos nichos não sai dos nichos. A internet tá mais parecendo um quarto de espelhos.

Mas vai que… né?