Lendo: O Tempo das Tribos (I), Maffesoli explica o interesse pelo Big Brother Brasil

Michel Maffesoli é um sociólogo francês. No livro O Tempo das Tribos ele trata de relacionar os aspectos da atualidade com os elementos da vida social tribal. Ou seja, a despeito das trocentas camadas tecnológicas que fazem a mediação entre o mundo e nós, ainda pensamos e agimos da mesma forma desde que o mundo é mundo (ou desde que passamos a chamar o mundo de “mundo”, sendo Homo sapiens sapiens).

No trecho abaixo ele analisa o conteúdo do que é a comunicação/mídia. Pro pessoal que estudou jornalismo, é o que define o “valor notícia“. Puxei isso porque foi o que li mais ou menos um dia depois do acontecido “estupro no BBB12“:

   Em um primeiro momento, a ampliação e a multiplicação dos meios da comunicação de massa puderam provocar a desintegração da cultura burguesa, fundamentada na universalidade e na valorização de alguns objetos e atitudes privilegiados. Podemos, entretanto, perguntar-nos se o prosseguimento dessa ampliação, e a banalização induzida por ela, não conduz esses mesmos meios de comunicação de massa para mais perto da vida comum. Nesse sentido, eles reinvestiriam em uma certa cultura tradicional da qual a oralidade é um vetor essencial. Isto posto, as mídias contemporâneas, não visualizando apenas as grandes obras da cultura, mas imaginando a vida de todos os dias, representariam o papel destinado às diversas formas da palavra pública: assegurar por meio do mito a coesão de um conjunto social dado. Esse mito, como sabemos, pode existir de diversas maneiras. Eu considero que existe uma função mítica que percorre transversalmente o conjunto da vida social. Um acontecimento político ou um fato corriqueiro, a vida de uma atriz, bem como a de um guru local podem, em um dado momento, assumir uma dimensão mítica. Interrogando-se, justamente, sobre os meios de comunicação de massa, F. Dumont não deixa de sublinhar, com matizes, que estes, qualquer que seja seu conteúdo, servem principalmente para “alimentar, como nos tempos antigos, mexericos e conversações correntes… e o que antigamente se dizia do cura ou do notário, diz-se hoje de tal ou tal vedete do cinema ou da política”. O aspecto judicioso dessa observação não pode deixar de nos impressionar, por menos que saibamos escutar as conversas de escritório, de fábrica, de escola ou ainda essas famosas conversas de botequim, de pátio de colégio, tão instrutivas para o observador social. Eu teria uma certa tendência a ser um pouco mais radical, dizendo que está na lógica da mídia ser um simples pretexto para a comunicação, como podem ter sido a diatribe filosófica na Antigüidade, o sermão religioso na Idade Média ou o discurso político na Era Moderna.(…)

A partir daí, dando ao termo comunicação seu sentido mais forte, isto é, aquilo que estrutura a realidade social e não o que é acessório, podemos ver no costume uma de suas modulações particulares.

O BBB é assunto, é um conteúdo de fácil assimilação e disseminação nas “conversas de escritório, de fábrica, de escola”, é ter algo pra falar, pra quebrar o gelo, pra puxar conversa com o porteiro ou se indignar diante da mãe do amigo. Nos serve pra nos reunir ao redor da fogueira pós-pós-moderna e malhar o judas da semana. Por que é tão fácil isso aparecer na sua news feed do facebook? Porque é um show da realidade. E volto a repetir (citando Baudrillard), “mais real que o real, é assim que se anula o real”. Ultrapassamos mais uma barreira: o ponto em que a polícia (real) invade o cenário do show hiper-real, onde já não se sabe o que é encenação ou comportamento espontâneo (isso ainda existe no mundo de hoje?).

À parte da discussão do espetáculo, eu vou sugerir uma hipótese: e se Boninho for tão gênio a ponto de revidar a queda de audiência das últimas edições do reality tentando (e conseguindo, pelo que se vê) criar uma situação tão polêmica logo no começo do programa? Não seria uma cena orquestrada há alguns meses pra conseguir mídia espontânea a priori e audiência a posteriori? Bom lembrar que em outubro de 2010 ele tuitou:

“Nada é proibido no BBB, pode fazer o que quiser. Esse ano… liberado! Vai valer tudo, até porrada”

O circo está armado. Agora é só esperar pela reunião do antropólogo, da militante feminista, do delegado e do Bolsonaro. Todos juntos no Superpop, debatendo sobre a conscientização sobre o estupro. Quero ver só o que a Luciana Gimenez acha disso tudo.

(imagem: nada mais apropriado do que o protagonista de “Le Bandard Fou”, do Moebius. É um cara que vive com ereção.)

Mallu na Crumbs/2009

Tente pensar nas adolescentes. Você já foi adolescente e já achou as Chiquititas o máximo. Mas isso foi há quase 20 anos, e não havia internet, o seu computador era de brinquedo e a MTV só existia na TV paga. Mas mesmo assim tu comprava as bonecas, cadernos e mochilas das Chiquititas. Uma menina nos seus 15 anos de idade naquela época não virava um fenômeno popular por ser esquisitinha e tocar “neo-folk”. Muito menos apareceria no Faustão. Isso, Faustão.

Ligar na TV Marinho no Domingo à tarde é de se esperar assistir a atores globais dançando, moças de mini-trajes executando coreografias e o Jota Quest relembrando músicas da Jovem Guarda. O que fazer quando, em vez disso, tem uma menina de 15/16 anos com um violão, uma banda de caras barbados e tentando (tentando…) parecer com o Bob Dylan? Enfatizando: No Faustão. A guria tem currículo: um puta auê na internet, virar habitué da MTV, ceder composição pra comercial da Vivo, não é pouca coisa. Ainda assim, apesar de ser “pop”, ela não é Pop, com P maiúsculo. Madonna é Pop, Michael Jackson é Pop, Jota Quest e Daniel são Pop. Mallu Magalhães não é Pop.

Ela ainda habitava um universo muito restrito – MTV, Internet e música de comercial (ta cheio de comercial com música legal que a gente não conhece) – agora, foi apresentada ao povão, na acepção mais generalizada do termo. É difícil o povão gostar, porém, em uma massa de milhões sempre há indivíduos malatendidos em segmentos culturais. Gente que nem sabe o que é esse tal de “neo- Folk”, mas se identifica. Apareceu aquela menina, novinha e já fazendo sucesso, cabelos e roupas esquisitas e um som diferente que nunca ouvi, “me identifiquei”.

O rock também era esquisito quando apareceu. E no pacotão Mallu vem tudo que ela já mencionou em entrevistas e onde ela já foi mencionada – as tags: Vanguart, Dylan, Johnny Cash. Depois da ovelha negra do hardcore, o emocore, será que vamos assistir ao nascimento do Frankenstein do indie-folk alternativo? Os antigos fãs podem falar mal, mas continuam falando de Mallu Magalhães.

/// Ariel Cardeal

Artigo escrito sobre a aparição de Mallu Magalhães no programa

Domingão do Faustão de 09/03/09.

Tava fazendo a limpa nuns arquivos e achei esse texto que escrevi em 2009 pra primeira (e única) edição da Crumbs Magazine, uma revista que fiz na faculdade com uns colegas, sob a regência da Camilinha Beaumord. Apesar de curta (tanto em tamanho quanto em duração), foi uma experiência bacana. E como as coisas mudam em 2 anos, hein?

Na mesma edição a Bruna falava da mixtape do Little Boots, a Pamyle da Mafalda, a Nubia contava da sua passagem pelo Festival Psicodália e a Camila assinava um texto sobre Richard Fariña e Vik Muniz. Onde achamos anúncios tão criativos? Tudo produzido em aula. Tu pode baixar no Issuu ou no Scribd aqui em baixo: