Meu querido pé que me aguenta o dia inteiro

Comprei um tênis essa semana. Estamos nos dando bem. Andando – e pra frente – como tem que ser. Parece que fomos feitos um para o outro. Se vamos continuar juntos daqui 10 anos eu não sei. Se não for, não era pra ser.

Vamos juntos até a língua rasgar e a sola deixar que os meus pés fiquem molhados quando quiçá chover em São Paulo. Não poderemos mais tomar banho de chuva.

Quando já não mais sentir sola, nem me sentir em um tênis, e caminhar parecer o ato mais natural, quando meus pés em chamas engatarem em marcha ao que finalmente desponta como um rumo pra vida naquele horizonte, aí vamos nos deixar de lado.

Eu vou seguir andando, enquanto você descansa pendurado atrás da porta ou nos fios emaranhados de algum poste.

O dia em que me livrei do vendedor de quindins

Mas o dia em que me livrei do vendedor de quindins…

Desde cedo, quando cheguei à Porto Alegre pra morar com meu pai eu ficava muito tempo em casa. Teve um desses dias que alguém bateu palmas e me tirou dessa inércia solitária: era o vendedor de quindins.

Deviam dar um jeito de fazer aquela iguaria pra diabéticos, mas mesmo assim não se compararia à mistura de ovos + açúcar.

Ele me apareceu oferecendo uma dúzia numa tacada. Doze por R$20. Talvez fosse mais por caridade, mas o doce era bom. No papo, quem me comprou foi ele. Decidi ajudar o cara e comprei a caixa.

Como eu morava praticamente sozinho, foi o seguinte: na primeira compra eu devorei tudo em uma semana, na segunda durou até o final de semana, na terceira durou uns 15 dias. Jesus me iluminou e me fez pensar que em 2 meses eu estaria com diabetes. Cheguei à conclusão de que quindim é pior do que crack.

Mas eu ainda queria ajudar o cara. Tive uma ideia: paro de comprar o peixe e o ensino a pescar. Dali um dia sugeri a ele que fizesse um carimbo com o nome e telefone pra começar a marcar as caixas.

Quando alguém quisesse encomendar mais, abriria a geladeira pra pegar um quindim e ligaria praquele número carimbado ali. Isso aumentaria a margem de lucro dele e reforçaria os laços dele com os clientes, que deixariam de chamá-lo por “o cara dos quindins”.

Melhor, fui correndo dentro de casa buscar uma caneta e falei pra ele começar pela minha caixa, escrevendo seu nome e telefone. Foi aí que vi que o problema era mais embaixo. Com muita dificuldade ele escreveu o nome, e com dificuldade dupla ele escreveu o telefone. E disse que nas próximas casas continuaria fazendo.

Mas pra minha surpresa, na semana seguinte não tinha nenhuma caixa marcada. Nem na outra. E ele sempre me empurrando mais quindins, que eu não queria. Foi aí que chegou ao cúmulo de ele entrar no terreno do vizinho pra bater na janela da minha casa porque eu demorei pra atender na frente. De certa forma, começou a invadir a minha privacidade. E eu comecei a me esconder dentro de casa (sim, sou um covarde, com vergonha de ser “grosso” com o cara só por dizer “não”).

Foram umas 3 vezes que eu gelei ao ouvir palmas na frente de casa e me meti num cômodo escondido, depois de fechar tudo. Comecei a pensar em como me livrar dele, pra sempre. Era falar com a máfia chinesa ou me mudar. E me mudar incluía arranjar um emprego full time, coisa que em Porto Alegre não tava rolando.

Hoje faz um mês que arranjei trabalho em São Paulo e vim morar aqui. Finalmente dei um jeito de me livrar do vendedor de quindins.

“você vai pra onde agora?”

Começava a esquentar demais e o asfalto enganava os olhos. O chão chegava a crepitar.

– Tá, e você vai pra onde agora?

– Acho que eu vou praquele lugar ensolarado, que aquele boliviano falou pra gente uma vez, lembra? Um trecho disso tudo tem que acontecer lá.

– Então faz o seguinte, leva essas sementes de girassol com você. Uma tradição indígena diz que eles trazem sorte em lugares ensolarados. Mas cuidado à noite, à noite eles não trazem sorte.

– Me ajuda com as malas?

– Claro. Levo elas pra você.

– Não, eu quero abrir todas elas e deixar por aqui. Pegue minhas coisas quem quiser.

– E não vai levar nada consigo?

– Vou levar um punhado de sementes de girassol. Agora vou ter vento fresco, calor nas costas e um bocado de sorte. É o suficiente pra um lugar ensolarado.

O ônibus desponta na esquina. Os dois se riem um do outro. Meses depois foi encontrada uma floresta de cabeças amarelas seguindo o sol, em algum lugar onde ele alcançava.

(ilustração do Matt Furie)

 

diga lá

O jardineiro da empresa sempre foi um cara reservado. Falava pouco, funcionário exemplar, nunca chegara atrasado e tinha um trato especial com as plantas, sempre respeitado por todos ali dentro, apesar de sua função simplória não interferir no trabalho do escritório. O gerente achou estranho quando ele chegou e disse “tenho uma coisa pra te falar.”

Se os gerânios precisavam de mais adubo ou se precisava plantar mais tulipas, por que não dizia logo? Esperava agora como o mesmo suspense aquele homem que fazia parte da hierarquia mais baixa da empresa.

A secretária anunciou sua entrada.

“Tenho uma coisa pra te falar.”

“Diga seu Antônio, tenho uma reunião em quinze minutos.”

“To comendo sua mulher.”

(conto escrito pra oficina de contos do SESC em 2010, com Tabajara Ruas.)