Lendo: A Cauda Longa (I)

Três anos depois, finalmente terminei de ler Cultura Livre, do Lessig. Fiz questão de ler até o final, até me aprofundei mais numa área no Direito, uma área que sou leigo. Já engatei em outro, o best-seller “A Cauda Longa” do editor da revista Wired, Chris Anderson. Nas primeiras páginas já dá pra ter noção qual é a do livro: Anderson fez uma pesquisa aprofundada numa mudança paradigmática da economia no início desse século:

Este livro é sobre esse mercado.

O estilhaçamento da tendência dominante em zilhões de fragmentos culturais multifacetados é algo que revoluciona em toda a sua extensão os meios de comunicação e a indústria do entretenimento. Depois de décadas de refinamento da capacidade de criar, selecionar e promover grandes sucessos, os hits já não são suficientes. O público está mudando para algo diferente, a proliferação caótica e emaranhada de… bem, ainda não temos um termo adequado para esses não-hits. Decerto, não são “fracassos”, pois, para começar, a maioria não buscava a dominação mundial. São “tudo o mais”. (ANDERSON, 2006)

… que dá pra fazer um link com o trecho que publiquei do Cultura Livre dia desses, antevendo algumas transformações culturais a partir das evoluções das tecnologias de disseminação da informação. Ainda no começo do livro ele fala sobre as “sobras” culturais do mercado, as obras que não fazem grande sucesso (a maioria) e que caem no esquecimento devido às restrições de distribuição.

Lessig também comenta isso ao definir quatro tipos de piratas virtuais, no capítulo Piratarias II:

Aqueles muitos que usam redes p2p para ter acesso a conteúdo protegido por copyright que não é mais vendido, ou que eles não comprariam porque os custos da transação fora da Internet seriam muito altos. Essa, para muitos, é a utilidade mais compensadora dos p2p. Músicas que eram parte da sua infância, mas que há muito desapareceram do mercado, aparecem de novo na rede como mágica. (Uma amiga me contou que, quando descobriu o Napster, passou um fim de semana “relembrando“ músicas antigas. Ela ficou espantada com a gama e a variedade do conteúdo disponível.) Mesmo para conteúdo fora de catálogo, isso tecnicamente ainda constitui violação de copyright. Mas, porque o titular do direito não está mais vendendo o material, os prejuízos econômicos são zero – o mesmo prejuízo que ocorre quando eu vendo minha coleção de discos de 45 rotações dos anos 60 para um colecionador local. (LESSIG, 2003)

minha geração não conheceria Tim Maia Racional se não fosse a internet.

Lessig e Anderson se complementam, um aprofundando-se nas leis e o outro no mercado.

(…) A maioria dos filmes não é sucesso de bilheteria, a maioria das músicas não alcança as paradas de sucesso, a maioria dos livros não é de best-sellers e a maioria dos programas de televisão nem é avaliada com base em índices de audiência nem se destina ao horário nobre. No entanto, muitas dessas produções atingem milhões de pessoas em todo o mundo. Apenas não são hits e, como tal, não são importantes. Mas é nesses estilhaços que explodem os antes uniformes mercados de massa. A simples imagem dos poucos grandes sucessos considerados importantes e tudo o mais que era irrelevante estão compondo um mosaico confuso de uma multidão de minimercados e microestrelas. Cada vez mais o mercado de massa se converte em massa de nichos. (ANDERSON, 2006)

Talvez o Pierre Lévy sirva pra um aprofundamento na “arquitetura” desse sistema todo. A ler…

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Kitsch: a pedra fundamental da orkutização

Começo a pensar que a internet é como um metamapa de nossas vidas, do nosso mundo. E penso que essas “mídias sociais” são como um deserto (do Saara, quem sabe?), em que as pessoas são beduínos que migram de oásis para oásis, levando em seus camelos apenas o que conseguem levar. Na internet a bagagem é aquilo que carregamos e acumulamos desde o berço: o saber. O que o sujeito sabe é o que ele é, e traduz-se na maneira como ele se porta. É o Capital Social.

Logo, esses nômades estão sempre em busca de um terreno fértil onde possam assentar. Mas carregam consigo aquilo que vem de antes, e onde quer que estejam, adaptam seu acampamento aos terrenos. A analogia é do oásis com as diversas plataformas sociais existentes na internet, e a bagagem dos camelos é a linguagem que constitui a cultura.

Dessa forma pode ser explicado um dos fenômenos mais odiados entre os usuários do facebook no Brasil, a chamada “Orkutização” (é, de novo), que além de um fluxo gigante de spam e conteúdo de alto nível kitsch, é também o retrato da expressão digital de um povo. Não é mais uma questão de plataforma, nem uma consequência da “inclusão digital”. São tão díspares as classes sociais postando as mesmas correntes e outros tipos de mensagem “mastigada”, que é possível afirmar uma universalidade do fenômeno. E isso é algo além dos acessos às culturas, pois compreende também o acesso às linguagens, ferramentas culturais de mixagem de conteúdo.

Pra entender melhor, deveríamos estudar com mais ateção o kitsch e os fatores culturais ligados a ele. Enfim, tenha uma boa tarde.

Lendo: Cultura Livre

Fazem umas duas ou três semanas que tou tentando me disciplinar a publicar um post por semana no mínimo. As ideias vem num fluxo maior do que esse período, mas como demora um pouco até concatenar tudo e transformá-las num post bonitinho que faça o mínimo de sentido, pensei no “projetooqueestoulendo” e trazer pra cá alguns trechos de livros que tenho lido, ou que já li, e que de uma forma ou de outra influem no que eu escrevo depois, como esse trecho aqui de Cultura Livre, do Lawrence Lessig:

   Nos próximos dez anos veremos uma explosão de tecnologias digitais. Tais tecnologias possibilitarão a qualquer um capturar e compartilhar informações. Captura e compartilhamento de informações é, obviamente, o que os humanos têm feito desde os primórdios da espécie. É assim que aprendemos e nos comunicamos. Mas capturar e compartilhar através de tecnologia digital é diferente. A exatidão e o poder são diferentes. Você poderia enviar um e-mail contando a alguém sobre uma piada que você viu no Comedy Central, ou você poderia enviar o clipe. Você poderia escrever uma dissertação sobre as inconsistências nos discursos dos políticos que você mais ama odiar, ou você poderia fazer um curta-metragem exibindo afirmações contraditórias destas mesmas pessoas. Você poderia escrever um poema para expressar seu amor por alguém, ou você poderia fazer uma colagem musical com suas músicas favoritas e disponibilizá-la na Internet.

Essa “captura e compartilhamento” digital é em parte uma extensão da captura e compartilhamento que sempre foram integrados à nossa cultura, e também é em parte algo novo. É a continuação da Kodak, mas destrói as barreiras das tecnologias do gênero. A técnica de “captura e compartilhamento” digital promete um mundo de criatividade incrivelmente diversa que pode ser fácil e amplamente compartilhada. E, à medida que tal criatividade se aplicar à democracia, será possível que uma vasta parcela de cidadãos utilizem-na para expressar, criticar e contribuir com a cultura que os rodeia.

A tecnologia nos deu a oportunidade de fazer algo com a cultura que era possível apenas para indivíduos em pequenos grupos, isolados uns dos outros. Pense em um velho senhor contando uma história para um grupo de vizinhos em uma cidadezinha. Agora pense na mesma história transmitida globalmente.

Tem tudo a ver com o post da semana passada, “A Imodéstia do Artista do Século”. Só pra contextualizar mesmo.

O livro tu pode procurar na internet ou acessar e baixar aqui na íntegra.

“Tudo é um remix”

Ser criativo é ter referências.

Juntar um punhado de subjetividades individuais, aquelas peças que montam nosso repertório: cenas de filmes, frases de músicas, trechos de séries, histórias de avô. É assim que se monta uma obra, segundo Kirby Ferguson, produtor responsável pela série de quatro filmes “Everything Is A Remix” (o quarto chega no segundo semestre de 2011).

Copiar faz parte do processo criativo. Um descobre e faz, e aí cada um faz sua leitura da coisa de acordo com suas experiências, vivências e percepções. A partir disso cada cópia leva um pedaço de quem copiou, sofrendo adaptações, melhoras e deformações.

O Mini comentou na semana passada sobre não ser o primeiro a ter uma ideia. As ideias originais não são bem as primeiras, mas as derivações das mesmas. As peças da prensa inventada pelo Gutenberg já existiam, ele redefiniu as funções de cada uma e deu início à tal ~~Revolução Industrial~~.

Ademais, a cópia faz parte da metodologia de aprendizado humano desde muito tempo. O “fazer igual” disseminou o conceito da roda, da pedra lascada, do fogo, das ferramentas, etc. O “remix” é inerente à natureza (não só humana).

Fiquei sabendo da “trilogia de quatro partes” pelo blog da Box1824.