Os hipsters encontraram seu avô

Depois de ler ‘On The Road’ o Bob Zimmerman pensou “opa, é isso que eu quero”. E foi pra Nova York tentar a vida, antes de virar Dylan. Neal Cassidy, o mortal que inspirou Dean Moriarty, foi motorista de um ônibus que viajava pelos EUA testando LSD com uma banda, e influenciou em algumas composições do Grateful Dead. Os beatniks foram os caras que deram o primeiro sinal de uma contra-cultura emergente na maior potência mundial do século XX.

Quem viu o vídeo da Box sabe o resultado disso.

Agora saiu o filme do livro, e não me arrisco a falar sobre isso. Mas tem uns bons pontos de vista rolando por aí, como a da Paula Taitelbaum:

“Eu vi um filme sobre a sensação universal de ter vinte anos, que me fez chorar no final, assim que a voz do verdadeiro Jack ecoou no cinema e logo que as palavras dele tingiram a tela – I think of Dean Moriarty… “Meninos, eu vi”. Eu vi um filme que tem alma – e nem importa se ela é beat.”

Ou o texto do Ivan Claudio sobre o filme na IstoÉ:

“O enfoque multidirecional resultou em um belo mapeamento das influências do livro sobre áreas tão diversas quanto a literatura, a música, as artes visuais, a moda, o turismo e o comportamento de várias gerações”

E o William Burroughs? Aquele velho safado…

(com o Kurt Cobain)

Não me arrisco a escrever sobre o filme/livro. Um amigo falou que é sobre amizade. Outro disse o seguinte:

O final é sobre a coisa mais dificil na vida que é a morte, deixar morrer, deixar partir… partir; saber que existe tempo pra tudo e que o tempo acaba, o momento passa, a felicidade não dura. Isso é o que ficou mais marcado pra mim no livro: o desapego… que não é o não se apegar, mas é o saber que vai se desapegar, que acaba sendo curtir o momento.

Se aquela guria novinha que vi no metrô lendo as primeiras páginas do livro entender isso, já tá de bom tamanho.

É como se agora os hipsters fossem visitar o avô. Aqueles sórdidos hipsters da América

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amarrar o tempo no poste

“O tempo só anda de ida

A gente nasce, cresce, envelhece e morre.

Pra não morrer

É só amarrar o tempo no Poste.

Eis a ciência da Poesia:

Amarrar o tempo no Poste!”

Manoel de Barros

Ontem assisti ao documentário sobre Manoel de Barros. Vale.

O homem pelas lentes de Deus

Se Deus fosse Homem (humano), não seria um só. Seria croata, moçambicano, coreano, judeu, protestante, onívoro e vegetariano. Teria que ser um cara onipresente, onisciente e, por que não, onipotente. Porque daí sim, talvez estejamos falando de todos nós, humanos, uma pequena parte do que seria Deus. E Deus nos veria, e veria o mundo com seus próprios olhos – ou seja, nossos olhos – dando sentido pra cada pequena coisa que acontece, cada evento singular. E claro que, sendo Deus um oni-tudo, ele se riria de si mesmo, de como ele é bobo.

O mais próximo das vistas de Deus sobre a raça humana que chegamos até hoje talvez seja o Youtube. Sim, o Youtube. É pelas lentes do “broadcast yourself” que as coisas acontecem no mundo inteiro, o dia inteiro. E recentemente decidiram “organizar” isso: a proposta era que milhares de pessoas gravassem vídeos do seu cotidiano e upassem pro site. Kevin Macdonald e Ridley Scott juntaram tudo e o resultado é esse aqui:

Medo, amor, violência, animais, comidas, acordar, dormir, nascer, perguntar. O que você tem no bolso agora? Tem tudo isso. As línguas que todos eles falam parece não importar, vi o filme e me sinto muito irmão de todo mundo ali. Life in a Day é a sensação estranha de Deus se olhando no espelho.

mindwalk

“Tu perguntas
o que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
‘Quem as algas apertam em seu abraço…’, perguntas
‘mais firme que uma hora e um mar certos?’ Eu sei.
Perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar,
arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra dura e lisa encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais
de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando a estrela sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento.”
Pablo Neruda (1904-1973)

 

A ideia de que estamos todos conectados por sistemas, por redes, fazendo a analogia da relação de uma árvore com seu ecossistema. Isso não é tão novo. É o que se diz em Mindwalk (Ponto de Mutação), filme do início da década de 90 baseado na obra de Fritjof Capra. Ele sugere também que o nosso grande problema hoje é uma “crise de percepção”.

O filme é como um desses artigos científicos densos pra caramba, repleto de referências, onde nenhum minuto de diálogo é em vão, em que tudo que se fala precisa ser digerido e posto lado a lado com o contexto atual das coisas. Basicamente, um encontro entre um político, um poeta e uma cientista conversando no Mont Saint Michel sobre “a vida, o universo e tudo mais.”

Vale a pena (mas assista com disposição).

Tem completo legendado no Youtube aqui e pra baixar em torrent aqui.

Um abraço.