Quanto mais internet mais inovação?

A internet é a atualização, e quanto mais se dissemina a banda larga por aí, se dissemina também a cultura da atualização. A atualização do status; de vida; de fotos no Instagram. À medida que a vida muda, atualizamos nossas identidades online, reconstruindo-as a partir do nosso consumo diário, seja de informação, bens ou serviços. Para isso, contamos com a ajuda do aparato tecnológico, análogo aos tentáculos de um polvo.

Se é tudo novo na nossa vida e na vida dos outros, então temos de tudo para NOS atualizar. Ou, inovar. A inovação é parte da cultura da atualização. Sem a busca pelo novo  não há o que atualizar. Inovação não é mais um diferencial, é prerrogativa de sobrevivência social.

Há a possibilidade de nos tornarmos mais criativos com o tempo, uma vez que a busca pela novidade é o novo “matar um leão por dia”. No entanto, quem nos garante criatividade quando nos escondemos involuntariamente das estranhezas que nos aguardam? Não era essa a promessa da web 3.0.

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Duas dicas pra VIDA

Duas premissas básicas pra direcionar a vida. Quase tudo que eu tenho feito se baseia nelas:

1. Como vai ser daqui a 10 anos?

Com a primeira eu quero dizer: Mudança. A mudança é a lei da vida, dizia o I Ching. Então se tudo muda, saiba que as coisas daqui a dez anos não serão como as conhecemos hoje. Se não por elas, por nós.

Dez anos não são necessariamente 10 anos. Pode ser 1 mês ou 50 anos. Acredite, tudo muda com o tempo. A barba cresce, os cílios caem, as pedras viram areia, e a areia vira pedra. Quanto tempo dura um horizonte no deserto? Quantas ideias lhe passam pela cabeça enquanto você tenta tirar aquele pedaço de carne que ficou entre os dentes depois do almoço? O recheio do tempo é o que diz quanto tempo o tempo realmente dura. E o Einstein com sua relatividade.

Sabendo que nada permanece inalterado, lembre-se de que alguma coisa vai mudar antes do “fim da história”. A maioria das pessoas trabalha com cenários atuais. Isso é estar preparado pro pulo do gato, pro bote da cobra, ou seja lá como você prefere chamar esse plot point da vida. Isso é ser capaz de conceber uma algo que ainda não tomou forma, é entender o processo e como ele vai levar as coisas até um ponto culminante que você imaginou. Mas cuidado, a ideia disso tudo é virtual, é só projeto. E projetos podem mudar no meio do caminho, tomar outros rumos, porque em “10 anos” tudo muda.

O que parece certo hoje amanhã já não vai parecer tão certo, e você vai reconsiderar algumas opiniões que pareciam ser tão ridículas. Não são. Depois de passar anos ouvindo metal e odiando “pagode”, você se pega fazendo aula de gafieira. “Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.”

2. E se fosse o contrário?

Agora, e se fosse o contrário? E se o que eu imaginava pra dez anos fosse o inverso? Essa pergunta serve pra absolutamente qualquer coisa na vida.

Primeiro por ver o outro lado. Eu comumente uso isso em relação às pessoas: e se fosse eu no lugar dele? Se essa situação fosse comigo, será que eu faria da mesma forma? Por que ele age assim? Se eu tivesse o mesmo background dele, eu faria diferente? Em 10 minutos (espero que não demore 10 anos pra acontecer isso com você) você se pega pensando sobre qualquer situação como um todo, sem se apegar às tuas perspectivas. Essa é a diplomacia do indivíduo, que pela empatia ajuda a resolver essas pequenas guerras diárias, de conflitos por interesse.

Pensar no contrário da situação te leva ao outro extremo, mas não é ao extremo que você deve se ater, mas à “escala likert” ali no meio. É o que leva de um extremo ao outro, o 180º da vida. Olhar pros lados, sabe? Entender que existem tantas possibilidades e coisas a serem vistas quanto um passeio de Google Street View.

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No fim, é tudo sobre projeção de cenários. Projetar cenários futuros e dar um giro de 360º por eles. A vida é isso aí, como abrir uma porta no final de um corredor estreito, apertado, e dar de cara com um abismo.

(a primeira imagem é daqui e a segunda é daqui.)

a imodéstia do artista do século

Pra contextualizar: imagine um ambiente permeado pela troca cultural, uma época em que a “população” de artistas triplicará (no mínimo), porque de repente todo lugar e momento se converte em galeria/exposição diante da indistinção do público/privado. E não é a população que cresce literalmente, mas a possibilidade de criar. Pense nos milhares de fotógrafos de celular, nos designers autodidatas, nos djs caseiros, na Escola de Artes Cênicas do Youtube ou na galeria de arte contemporânea da Rua. Como vamos lidar com isso nos próximos anos? Não é o artista o arauto dos novos tempos, o radar da humanidade?

(acima, o programa responsável pelo parto desse texto)

Essa explosão repentina de gente criando, fazendo coisas novas, recriando e conversando faz surgir uma espécie de “nova atmosfera” social. Estaremos cada vez mais cercados de música, de movimento, de poética e de design nos próximos anos. Veios criativos pipocam por aí, e quanto maior a conectividade entre eles, maior é o fluxo criativo. A construção da pós-modernidade no século passado é revista atualmente, estamos vestindo novamente o figurino vintage, agora pelo avesso. Olhamos pra trás com um ar de já ter passado por tudo aquilo. Com isso, nos acostumamos com a ideia de coletivo criativo, vida em comunidade, auto-sustentação e contra-cultura. De novo. Mais novo.

Vai-se perder a razão, mas não a fé.

Todo ser humano é um artista em potencial. Já passamos de todas as fases de redescobertas do ser humano. Passou o cubismo. Passou Basquiat. Até o graffiti já passou. Agora, façamos o caminho inverso da modernidade. O que faltava ao artista, não falta mais. Mostre-se a quem quiser (te ver). Mas não queira ser o centro das atenções, isso não é saudável pra você, nem pra ninguém.

Ao invés disso encontre os outros, os iguais e os diferentes. Isso é a criatividade, que não pode ser mais exclusividade dos “gênios” – estes que já não tem mais o propósito de existir – descobrimos seu segredo: a criatividade vem dos outros, de copiar e reinventar. Remodelar. Tudo é remix. Os gênios são todos aqueles que descobriram a ingenuidade de descobrir as diferenças.

E o que está por vir? A compreensão? “Grandes estruturas abstratas”, com certeza. O mundo físico tomará um novo significado, o reinventaremos.

Mas não se esqueça: olhe pro lado e escute quem estiver ali. E diga isso a quem estiver do outro lado.

Um não tão novo tipo de trabalho

Pois bem, ganhei umas edições velhas da revista Trip do meu pai.

Numa de 2003 eu achei uma matéria sobre uma nova forma de se pensar em trabalho. Um novo jeito, meio diferente daquilo que nossos pais pensavam, sobre “ter uma casa própria, um emprego no Banco do Brasil e uma família”, como disse a filósofa Viviane Mosé. Isso soa familiar ainda, não?

Percebi que não é tão nova essa ideia de se trabalhar com algo que você goste tanto que possa se atirar de cabeça, tornando seu trabalho algo tão bacana que você nem chama de trabalho. Essa coisa que taguearam de “worklover” hoje em dia. E é possível.

Eu acredito que se um tema pauta nossas conversas por mais de 8 anos, é porque talvez aquilo seja bem da verdade, ou no mínimo relevante. De imediato lembrei daquele texto do Alexandre Matias sobre trabalho, “sua vida, saca?”, que ele escreveu em 2007 e citou esse ano (ou ano passado) ainda como um assunto atual.

É pertinente pra mim – pessoa recém-formada em publicidade, com 21 anos, na “época mais produtiva de nossas vidas”, como diria o Léo – e pra muita gente que tem sacado que o futuro não é mais que uma promessa, e quem constrói ele é você. Depois de tudo que aconteceu no século passado, todas as descobertas e liberações, será que ainda é válido ter que se standardizar pra “ser alguém na vida”? Isso tem bem a ver com o lance todo de Geração Y (vídeo em anexo pra quem não sabe ainda o que é isso), Caudas Longas e revoluções espanholas.

Esse mundo de hoje já não precisa de gente que simplesmente execute e reproduza. A gente tá precisando de gente que pense, execute, conecte e trabalhe em grupo. Certas hierarquias já não fazem mais sentido. A maioria das vezes elas geram uma competição inútil pra alcançar um topo. E só.

Nessa matéria da Trip tem uma entrevista bacanosa com a Viviane Mosé. Se tu ler a entrevista com ela e o texto do Matias, não preciso explicar mais nada.

Vai lá, tem no Google Books, tá lá pela página 86.

PS1: O texto to Matias é de 2003, e foi re-postado em 2007.

PS2: numa Trip de 2001 tinha uma seção que fala da descriminalização da maconha. Do mesmo jeito que falam hoje. Não mudou nada 😛