Quanto mais internet mais inovação?

A internet é a atualização, e quanto mais se dissemina a banda larga por aí, se dissemina também a cultura da atualização. A atualização do status; de vida; de fotos no Instagram. À medida que a vida muda, atualizamos nossas identidades online, reconstruindo-as a partir do nosso consumo diário, seja de informação, bens ou serviços. Para isso, contamos com a ajuda do aparato tecnológico, análogo aos tentáculos de um polvo.

Se é tudo novo na nossa vida e na vida dos outros, então temos de tudo para NOS atualizar. Ou, inovar. A inovação é parte da cultura da atualização. Sem a busca pelo novo  não há o que atualizar. Inovação não é mais um diferencial, é prerrogativa de sobrevivência social.

Há a possibilidade de nos tornarmos mais criativos com o tempo, uma vez que a busca pela novidade é o novo “matar um leão por dia”. No entanto, quem nos garante criatividade quando nos escondemos involuntariamente das estranhezas que nos aguardam? Não era essa a promessa da web 3.0.

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50 anos em 5

Em duas semanas o mundo dá só quinze voltas sobre si mesmo. Já é o suficiente pra barba crescer, ou esperar uma encomenda. Em uma dessas voltas que o mundo vence, tem alguém achando que passou horas tentando tirar um pedaço de pipoca dos dentes ou brincando com uma farpa do dedo.

A percepção de tempo é orientada pelo modo como o preenchemos. Um vazio no tempo transforma minutos em anos, talvez por não haver nada que clame pela atenção e necessidade em dar sentido ao que nos é externo.

Assim, o tempo é como um véu que nos envolve, uma trama, afetando diretamente nossa percepção do mundo, sendo cada vez mais grossa à medida que os fatos se sucedem. Vamos fatiando-o à medida que se torna complicado lidar com um monstrengo de eventos variados, sobrepondo-se uns aos outros. Daí surgem as histórias que contamos, seja por um álbum de fotos no facebook, um vídeo ou uma atualização de status. Aprendemos a fatiar o tempo a cada segundo vivido, “embalando-o” em uma estrutura linear de começo meio e fim para que ele se torne algo mensurável e significativo.

Ultimamente nos tem parecido que o tempo tem passado muito rápido – ou que muitas coisas tem acontecido num período curto de tempo, o que seria o mesmo. Não seria, talvez, por consequência das redes?

Ubiquidade. É um dos princípios básicos das redes. Enquanto acontece aqui, acontece lá, e lá também. Tudo acontece ao mesmo tempo, e está tudo conectado. Nada acontece de forma isolada. Ou seja, depois da internet e mais ainda depois das redes sociais, tomamos consciência dos fatos ao redor do mundo todo.

Não é que tenham acontecido mais coisas, não é que tenham começado a filmar gatos ou bebês rindo só agora. Isso sempre aconteceu, mas é de uns 50 anos pra cá que tudo isso tem sido documentado e há uns 20 que só aumenta a velocidade que isso nos é entregue.

Lembra do In Rainbows, do Radiohead? Pois é, quase 5 anos

Estamos preenchendo nosso tempo com cada vez mais coisas, fatos, eventos, fotos, atualizações de status, e isso afeta nossa percepção de maneira a crer que ele passa mais rápido. Não é uma hora que passa mais rápido, mas a quantidade de informação a que somos submetidos nesse período de uma hora. As coisas de três anos parecem estar obsoletas há dez ou vinte, quase prontas pra entrar na regrinha do vintage. Bem o sabem os adolescentes nostálgicos de hoje.

Conseguimos comprimir o tempo sem ter de quebrar a barreira do som, foi só ter noção do universo de coisas que acontecem enquanto ele passa. Seria a inteligência coletiva da internet uma ideia de onisciência próxima a de Deus? Cabe a reflexão sobre.

Pra fechar, um trecho de “Faraway, So Close”, do Wim Wenders:

Vou explicar duas coisas. O tempo é curto. Essa é a primeira coisa. Para a fuinha, tempo é traiçoeiro. Para o heroi, tempo é heróico. Para a prostituta, tempo é somente outra peça. Se você for gentil, seu tempo será gentil. Se estiver com pressa, seu tempo voa.  O tempo é seu servo se você for o mestre dele. O tempo é um deus se você for seu cão. Nós somos os criadores do tempo e os assassinos do tempo. Tempo é valioso, essa é a segunda coisa. Você é o relógio, Cassiel.

Eu nem sabia que podia ser “ombudsman do universo”

Com o tempo vamos deixando pra trás as antigas relações hierárquicas de trabalho, de departamentos que não se conversam passamos para uma grande rede colaborativa, ampliando o escopo criativo, aproveitando os indivíduos como potências e, sobretudo, canalizando aquela paixão que leva alguém a passar dez anos fazendo algo sem grandes recompensas financeiras.

Não é pelo dinheiro que fazemos isso, mas pelo simples prazer de fazer algo que se gosta. Quando isso acontece, feriados e final de semana deixam de ser uma fuga do “trabalho” pra ser um respiro no processo (o melhor é jogar isso na cara daqueles chatos que falam de trabalho=tripalho). Mil vezes um trabalho que você goste e se realize (sendo assim, deixando de se encaixar na categoria “trabalho”), do que ganhar na mega sena.

Há algum tempo eu faço umas coisas, meio no empirismo, meio sem pensar, e hoje me dou conta de que são aptidões desenvolvidas a partir de algumas paixões minhas: pessoas, internet, caos. Como é difícil categorizar gostos aleatórios eu renomeei algumas das minhas “funções sociais” (tipo o cargo “diretor de whatever“), coisas que eu nem sabia que eu podia ser:

Camaleão Social: É permitir-se mudar e não se apegar às formas nem às ideias.  Me assumo leigo para evitar os vícios. A curiosidade mantém esse trânsito pelas culturas e pessoas. Também chamam de “stay foolish, stay hungry”.

Redator pra Web: Talvez minha única atividade “séria”. Disposição pra “sentar e conversar” é o primeiro dote. A internet é uma grande conversa, tem que saber dialogar. E o diálogo é multimídia: usa texto, vídeo, áudio, imagem, e os hiperlinks. O redator pra web capitaneia o navegar pelo oceano de informação da internet; saber montar as conexões pra tornar isso possível é imprescindível. (post atualizado: larguei mão da redação e tô pegando planejamento agora. a quem interessar possa.)

Designer de Convívio: Apresentar pessoas novas às pessoas velhas, tendo ideias novas a partir das ideias velhas. Deu pra entender? Uma das coisas que eu acho mais legal de fazer na VIDA é agrupar pessoas com ideias semelhantes e/ou hiper-opostas. Conecte os pontos entre os seus amigos, promova o embate de ideias entre eles. A analogia visual disso fica entre uma constelação e uma colcha de retalhos social.

Ombudsman do Universo: Ombudsman é o cara que ouve as críticas e sugestões. É a ouvidoria. Então, recebo as energias cósmicas a fim de uma melhora na autocrítica e nos serviços prestados à comunidade galática. Enfim, ligar o shuffle da vida.

Isso tudo tem a ver com meu outro post “reajuste de expectativas” também.

(fotos da Ana Cabaleiro)

Lendo: A Cauda Longa (I)

Três anos depois, finalmente terminei de ler Cultura Livre, do Lessig. Fiz questão de ler até o final, até me aprofundei mais numa área no Direito, uma área que sou leigo. Já engatei em outro, o best-seller “A Cauda Longa” do editor da revista Wired, Chris Anderson. Nas primeiras páginas já dá pra ter noção qual é a do livro: Anderson fez uma pesquisa aprofundada numa mudança paradigmática da economia no início desse século:

Este livro é sobre esse mercado.

O estilhaçamento da tendência dominante em zilhões de fragmentos culturais multifacetados é algo que revoluciona em toda a sua extensão os meios de comunicação e a indústria do entretenimento. Depois de décadas de refinamento da capacidade de criar, selecionar e promover grandes sucessos, os hits já não são suficientes. O público está mudando para algo diferente, a proliferação caótica e emaranhada de… bem, ainda não temos um termo adequado para esses não-hits. Decerto, não são “fracassos”, pois, para começar, a maioria não buscava a dominação mundial. São “tudo o mais”. (ANDERSON, 2006)

… que dá pra fazer um link com o trecho que publiquei do Cultura Livre dia desses, antevendo algumas transformações culturais a partir das evoluções das tecnologias de disseminação da informação. Ainda no começo do livro ele fala sobre as “sobras” culturais do mercado, as obras que não fazem grande sucesso (a maioria) e que caem no esquecimento devido às restrições de distribuição.

Lessig também comenta isso ao definir quatro tipos de piratas virtuais, no capítulo Piratarias II:

Aqueles muitos que usam redes p2p para ter acesso a conteúdo protegido por copyright que não é mais vendido, ou que eles não comprariam porque os custos da transação fora da Internet seriam muito altos. Essa, para muitos, é a utilidade mais compensadora dos p2p. Músicas que eram parte da sua infância, mas que há muito desapareceram do mercado, aparecem de novo na rede como mágica. (Uma amiga me contou que, quando descobriu o Napster, passou um fim de semana “relembrando“ músicas antigas. Ela ficou espantada com a gama e a variedade do conteúdo disponível.) Mesmo para conteúdo fora de catálogo, isso tecnicamente ainda constitui violação de copyright. Mas, porque o titular do direito não está mais vendendo o material, os prejuízos econômicos são zero – o mesmo prejuízo que ocorre quando eu vendo minha coleção de discos de 45 rotações dos anos 60 para um colecionador local. (LESSIG, 2003)

minha geração não conheceria Tim Maia Racional se não fosse a internet.

Lessig e Anderson se complementam, um aprofundando-se nas leis e o outro no mercado.

(…) A maioria dos filmes não é sucesso de bilheteria, a maioria das músicas não alcança as paradas de sucesso, a maioria dos livros não é de best-sellers e a maioria dos programas de televisão nem é avaliada com base em índices de audiência nem se destina ao horário nobre. No entanto, muitas dessas produções atingem milhões de pessoas em todo o mundo. Apenas não são hits e, como tal, não são importantes. Mas é nesses estilhaços que explodem os antes uniformes mercados de massa. A simples imagem dos poucos grandes sucessos considerados importantes e tudo o mais que era irrelevante estão compondo um mosaico confuso de uma multidão de minimercados e microestrelas. Cada vez mais o mercado de massa se converte em massa de nichos. (ANDERSON, 2006)

Talvez o Pierre Lévy sirva pra um aprofundamento na “arquitetura” desse sistema todo. A ler…

a imodéstia do artista do século

Pra contextualizar: imagine um ambiente permeado pela troca cultural, uma época em que a “população” de artistas triplicará (no mínimo), porque de repente todo lugar e momento se converte em galeria/exposição diante da indistinção do público/privado. E não é a população que cresce literalmente, mas a possibilidade de criar. Pense nos milhares de fotógrafos de celular, nos designers autodidatas, nos djs caseiros, na Escola de Artes Cênicas do Youtube ou na galeria de arte contemporânea da Rua. Como vamos lidar com isso nos próximos anos? Não é o artista o arauto dos novos tempos, o radar da humanidade?

(acima, o programa responsável pelo parto desse texto)

Essa explosão repentina de gente criando, fazendo coisas novas, recriando e conversando faz surgir uma espécie de “nova atmosfera” social. Estaremos cada vez mais cercados de música, de movimento, de poética e de design nos próximos anos. Veios criativos pipocam por aí, e quanto maior a conectividade entre eles, maior é o fluxo criativo. A construção da pós-modernidade no século passado é revista atualmente, estamos vestindo novamente o figurino vintage, agora pelo avesso. Olhamos pra trás com um ar de já ter passado por tudo aquilo. Com isso, nos acostumamos com a ideia de coletivo criativo, vida em comunidade, auto-sustentação e contra-cultura. De novo. Mais novo.

Vai-se perder a razão, mas não a fé.

Todo ser humano é um artista em potencial. Já passamos de todas as fases de redescobertas do ser humano. Passou o cubismo. Passou Basquiat. Até o graffiti já passou. Agora, façamos o caminho inverso da modernidade. O que faltava ao artista, não falta mais. Mostre-se a quem quiser (te ver). Mas não queira ser o centro das atenções, isso não é saudável pra você, nem pra ninguém.

Ao invés disso encontre os outros, os iguais e os diferentes. Isso é a criatividade, que não pode ser mais exclusividade dos “gênios” – estes que já não tem mais o propósito de existir – descobrimos seu segredo: a criatividade vem dos outros, de copiar e reinventar. Remodelar. Tudo é remix. Os gênios são todos aqueles que descobriram a ingenuidade de descobrir as diferenças.

E o que está por vir? A compreensão? “Grandes estruturas abstratas”, com certeza. O mundo físico tomará um novo significado, o reinventaremos.

Mas não se esqueça: olhe pro lado e escute quem estiver ali. E diga isso a quem estiver do outro lado.

“Cole isso no seu mural”

A internet hoje funciona como um estrato social, que reproduz de maneira virtual nossas opiniões, atitudes e idéias. Nós nos traduzimos pra conseguirmos nos comunicar com os outros, usando linguagens multimídia nas benditas mídias sociais. E as linguagens produzem indícios (a.k.a “pistas”), certo?

A linguagem é uma característica cultural: cada cultura possui uma linguagem, seja derivação de uma outra linguagem ou uma mistura duas ou mais linguagens. Enfim, a maneira como você se comunica em diversos meios, em n situações, diz muito sobre você. É o indício da(s) cultura(s) a(s) qual(is) você pertence.

Por isso existem certas “regras de etiqueta” em cada ambiente novo que adentramos, e na internet não é diferente. Tem um pessoal aí que reclama da “orkutização do Facebook”, que seria a popularização do Facebook devido à migração dos usuários do Orkut. O problema pra quem reclama não é só a entrada dessas pessoas na rede, mas o conteúdo das postagens feitas ali, ou seja, a linguagem que antes era restrita à uma mídia (Orkut) passa a ser usada por um número cada vez maior de pessoas numa mídia outrora exclusivista (tinha um tempo que o Facebook era só em inglês).

Isso leva a dois subtópicos dos mais discutidos entre os “anti-orkutização”: I. a criação de perfis de pessoa jurídica (perfil de banda ou empresa); II. a propagação de correntes na rede.

I.Criar um perfil no Facebook pra uma empresa é algo totalmente criativo, já parou pra pensar? Esses caras até que conseguem fazer bastante coisa com esses perfis.  Pra um leigo é a maneira mais fácil de fazer o que ele já fazia lá no Orkut. Tente você mesmo abrir a página inicial do Facebook e criar uma fanpage. Não é algo explícito. E a culpa é da interface, na minha opinião.

II.E as mensagens de corrente, hein? “Copie isso e cole no seu mural”. Eu lembro de quando circulava aquela história de mandar um email pra 15 pessoas e apertar F5. Aparecia o nome da pessoa amada na tela. De arrepiar.

Mas aí, pare e pense no imaginário popular brasileiro: somos um povo cheio de superstições, com uma miscelânea de crenças e religiões. Provavelmente começou com aquelas mensagens ameaçadoras do fantasma da menina que vinha te pegar caso tu não encaminhasse o email, até que chegou o dia em que você podia fazer sua própria versão da mensagem linkando outras pessoas. Quer dizer: aproveitando uma seleção aleatória do site (ou da própria vida, conforme as pessoas vão “curtindo”), você provoca a interação, só pelo gostinho de interagir mesmo. E não sei se tem coisa mais brasileira do que parar durante o dia pra falar bobagem, comentar naquela marcação boba que sua amiga fez no Facebook.

Bom, acontece que isso é spam, e talvez por isso que irrite àqueles que já estão a mais tempo na internet. E como disse o colega Felipe Barcellos:

Spam, por melhor que pareça a intenção, é uma praga formal que impede a presença do ruido comunicacional que gera novas ideias.

Na verdade, sou a favor de um estudo científico sobre o conteúdo das correntes. É bom até pra entender melhor qualé a dessas pessoas que tão na internet. Ali reside uma certa beleza humana, por mais que seja um “erro”, é uma transgressão de certas normas de convívio social. A orkutização é como a criança que faz sujeira na mesa. E não adianta, por mais que você reclame deles, são hábitos. E você sabe né, nada é mais forte que o hábito.

“Transparência é para os governos”

Transparência é para os governos.

Transparência é para organizações

que são tão grandes que se tornam parte do governo.

Privacidade é para os indivíduos.

Transparência tira o poder das organizações poderosas

e o confere a quem não tem poder nenhum.

Privacidade protege indivíduos que não tem poder

contra a força das organizações titânicas.

Hoje de manhã teve um talkshop no Santander Cultural acerca do tema “Co-Criação, novos negócios e direito autoral” pelo projeto Agora Ágora, com uns convidados bem bacanas. Falando de internet, direito autoral, produção de conteúdo, etc, o papo acabou descambando pro tema privacidade.

Quão transparente somos individualmente quando cobramos transparência de governos e corporações? O jornalista Lino Bocchini (daquele caso de censura da “Falha de São Paulo”) respondeu com esse trecho da entrevista do Assange.Tá certo, a transparência é pros grandes grupos, pros coletivos humanos tomadores de decisões que nos afetam diariamente.

No entanto, é tênue a zona fronteiriça entre público e privado hoje. O cidadão não tem sua privacidade invadida porque ele mesmo a evade, respondendo às perguntas que ninguém perguntou no Facebook e no Twitter, respondendo às perguntas a si mesmo, talvez. “O que você está pensando? O que está acontecendo? Onde você está agora?”, são perguntas que exigem do sujeito uma reflexão mínima a fim de que sua resposta mostre quem ele é e ao que veio naquele ambiente virtual. Escancarar as portas da vida privada é peça fundamental da construção identitária hoje.

Agora, quanto de nós realmente aparece nesses meios? E aquilo que é preservado, pra onde vai?