Kitsch: a pedra fundamental da orkutização

Começo a pensar que a internet é como um metamapa de nossas vidas, do nosso mundo. E penso que essas “mídias sociais” são como um deserto (do Saara, quem sabe?), em que as pessoas são beduínos que migram de oásis para oásis, levando em seus camelos apenas o que conseguem levar. Na internet a bagagem é aquilo que carregamos e acumulamos desde o berço: o saber. O que o sujeito sabe é o que ele é, e traduz-se na maneira como ele se porta. É o Capital Social.

Logo, esses nômades estão sempre em busca de um terreno fértil onde possam assentar. Mas carregam consigo aquilo que vem de antes, e onde quer que estejam, adaptam seu acampamento aos terrenos. A analogia é do oásis com as diversas plataformas sociais existentes na internet, e a bagagem dos camelos é a linguagem que constitui a cultura.

Dessa forma pode ser explicado um dos fenômenos mais odiados entre os usuários do facebook no Brasil, a chamada “Orkutização” (é, de novo), que além de um fluxo gigante de spam e conteúdo de alto nível kitsch, é também o retrato da expressão digital de um povo. Não é mais uma questão de plataforma, nem uma consequência da “inclusão digital”. São tão díspares as classes sociais postando as mesmas correntes e outros tipos de mensagem “mastigada”, que é possível afirmar uma universalidade do fenômeno. E isso é algo além dos acessos às culturas, pois compreende também o acesso às linguagens, ferramentas culturais de mixagem de conteúdo.

Pra entender melhor, deveríamos estudar com mais ateção o kitsch e os fatores culturais ligados a ele. Enfim, tenha uma boa tarde.

“Cole isso no seu mural”

A internet hoje funciona como um estrato social, que reproduz de maneira virtual nossas opiniões, atitudes e idéias. Nós nos traduzimos pra conseguirmos nos comunicar com os outros, usando linguagens multimídia nas benditas mídias sociais. E as linguagens produzem indícios (a.k.a “pistas”), certo?

A linguagem é uma característica cultural: cada cultura possui uma linguagem, seja derivação de uma outra linguagem ou uma mistura duas ou mais linguagens. Enfim, a maneira como você se comunica em diversos meios, em n situações, diz muito sobre você. É o indício da(s) cultura(s) a(s) qual(is) você pertence.

Por isso existem certas “regras de etiqueta” em cada ambiente novo que adentramos, e na internet não é diferente. Tem um pessoal aí que reclama da “orkutização do Facebook”, que seria a popularização do Facebook devido à migração dos usuários do Orkut. O problema pra quem reclama não é só a entrada dessas pessoas na rede, mas o conteúdo das postagens feitas ali, ou seja, a linguagem que antes era restrita à uma mídia (Orkut) passa a ser usada por um número cada vez maior de pessoas numa mídia outrora exclusivista (tinha um tempo que o Facebook era só em inglês).

Isso leva a dois subtópicos dos mais discutidos entre os “anti-orkutização”: I. a criação de perfis de pessoa jurídica (perfil de banda ou empresa); II. a propagação de correntes na rede.

I.Criar um perfil no Facebook pra uma empresa é algo totalmente criativo, já parou pra pensar? Esses caras até que conseguem fazer bastante coisa com esses perfis.  Pra um leigo é a maneira mais fácil de fazer o que ele já fazia lá no Orkut. Tente você mesmo abrir a página inicial do Facebook e criar uma fanpage. Não é algo explícito. E a culpa é da interface, na minha opinião.

II.E as mensagens de corrente, hein? “Copie isso e cole no seu mural”. Eu lembro de quando circulava aquela história de mandar um email pra 15 pessoas e apertar F5. Aparecia o nome da pessoa amada na tela. De arrepiar.

Mas aí, pare e pense no imaginário popular brasileiro: somos um povo cheio de superstições, com uma miscelânea de crenças e religiões. Provavelmente começou com aquelas mensagens ameaçadoras do fantasma da menina que vinha te pegar caso tu não encaminhasse o email, até que chegou o dia em que você podia fazer sua própria versão da mensagem linkando outras pessoas. Quer dizer: aproveitando uma seleção aleatória do site (ou da própria vida, conforme as pessoas vão “curtindo”), você provoca a interação, só pelo gostinho de interagir mesmo. E não sei se tem coisa mais brasileira do que parar durante o dia pra falar bobagem, comentar naquela marcação boba que sua amiga fez no Facebook.

Bom, acontece que isso é spam, e talvez por isso que irrite àqueles que já estão a mais tempo na internet. E como disse o colega Felipe Barcellos:

Spam, por melhor que pareça a intenção, é uma praga formal que impede a presença do ruido comunicacional que gera novas ideias.

Na verdade, sou a favor de um estudo científico sobre o conteúdo das correntes. É bom até pra entender melhor qualé a dessas pessoas que tão na internet. Ali reside uma certa beleza humana, por mais que seja um “erro”, é uma transgressão de certas normas de convívio social. A orkutização é como a criança que faz sujeira na mesa. E não adianta, por mais que você reclame deles, são hábitos. E você sabe né, nada é mais forte que o hábito.