“de vez em quando é bom falar dos fracassados”

Quero conhecer um sujeito que se vanglorie de suas derrotas, como eu. Sujeitos assim são como quelônios/moluscos – ou sei lá como se chamam esses animais – duros por fora e moles por dentro, com uma sensibilidade ímpar. Observam o mundo de dentro de suas carapaças, sem se permitir submeter-se a ele.

Não que o mundo seja ruim, mas as pessoas estão sempre querendo algo de você. Expectativas, entende? Quando não é o dinheiro que você tem, é o seu fluir que eles querem. Como pode um sujeito tão fodido como você estar contente com tudo? É isso que eles não entendem, é o que eles querem, ser um fodido e um motivo pra ficar de mimimi. E acaso eles não consigam, é tua domesticação que conseguirão. Tua inaptidão social é um prêmio.

Nada a perder. Uma vantagem de não ter muito é não ter que eventualmente pesar as coisas na oportuna hora da partida. E a partida é necessária, o movimento é a única forma de a energia fluir. É assim que funciona com os elétrons no universo embalado a vácuo dos átomos, por que não haveria de ser assim conosco?

Voltando ao sujeito, que é uma antena do mundo: sua moleza interior, sensorialmente falando, funciona como os ouvidos de um cão. E o mundo não fala com ele. Grita. Esse maldito quer ser ouvido a todo custo. E o que faço quando não posso mandar ele calar a boca? Me ensurdeço.

Confundir os sentidos, ativar uma hiper-sensorialidade, embaçar o filtro sensorial, jogando eu mesmo um tijolo conceitual na minha cabeça. São os artifícios pra escapar dessa verve da novidade efêmera, da sugestão de construção de identidade copiando a identidade alheia. Ah, esses meus colegas quelônios/quelóides (ou sei lá como chama), se soubessem o tudo que eles têm e são. Potências abafadas.

Mas calma, o futuro é logo ali. Essa sensibilidade aguçada vai encontrar a liquidez dos novos tempos, aqueles corpos sólidos de outrora vão sentir o baque na água, como quem se joga de peito na piscina. E esses sujeitos moldáveis, moles, vão tornar-se o vasilhame perfeito pra abraçar os estilhaços disso tudo.

(ilustrações de Fred Tomaselli)

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“You haven’t met yourself yet. But the advantage to meeting others in the meantime is that one of them may present you to yourself.”

Tem uma parte do “Waking Life” em que o guri encontra um cara num pátio, e este lhe fala: “Você não se encontrou ainda. Mas a vantagem de encontrar os outros é que um deles pode lhe apresentar a si mesmo.”

Quem somos nós se não espelhos uns dos outros? Nos relacionamos com aqueles que se nos assemelham, que nos espelham. Buscamos a empatia do próximo justamente para… nos descobrir. É importante fazer essa ponte entre essas pessoas-espelho, apresentando-os uns aos outros, permitindo que eles tenham conhecimento de outros fragmentos de seus espelhos, coisas de si que eles nem imaginavam. Se as pessoas se descobrirem dessa forma, reconhecendo-se no outro, talvez possamos viver em um mundo melhor, em breve.

Como diz Clóvis de Barros, em “O Mundo Percebido”:

“mas o mundo tá cheio de tiranos, pessoas que fazem questão que todos concordem com ele. (…) e assim, de tirano em tirano, guerras por perspectiva, guerras por percepção.”