O dia em que me livrei do vendedor de quindins

Mas o dia em que me livrei do vendedor de quindins…

Desde cedo, quando cheguei à Porto Alegre pra morar com meu pai eu ficava muito tempo em casa. Teve um desses dias que alguém bateu palmas e me tirou dessa inércia solitária: era o vendedor de quindins.

Deviam dar um jeito de fazer aquela iguaria pra diabéticos, mas mesmo assim não se compararia à mistura de ovos + açúcar.

Ele me apareceu oferecendo uma dúzia numa tacada. Doze por R$20. Talvez fosse mais por caridade, mas o doce era bom. No papo, quem me comprou foi ele. Decidi ajudar o cara e comprei a caixa.

Como eu morava praticamente sozinho, foi o seguinte: na primeira compra eu devorei tudo em uma semana, na segunda durou até o final de semana, na terceira durou uns 15 dias. Jesus me iluminou e me fez pensar que em 2 meses eu estaria com diabetes. Cheguei à conclusão de que quindim é pior do que crack.

Mas eu ainda queria ajudar o cara. Tive uma ideia: paro de comprar o peixe e o ensino a pescar. Dali um dia sugeri a ele que fizesse um carimbo com o nome e telefone pra começar a marcar as caixas.

Quando alguém quisesse encomendar mais, abriria a geladeira pra pegar um quindim e ligaria praquele número carimbado ali. Isso aumentaria a margem de lucro dele e reforçaria os laços dele com os clientes, que deixariam de chamá-lo por “o cara dos quindins”.

Melhor, fui correndo dentro de casa buscar uma caneta e falei pra ele começar pela minha caixa, escrevendo seu nome e telefone. Foi aí que vi que o problema era mais embaixo. Com muita dificuldade ele escreveu o nome, e com dificuldade dupla ele escreveu o telefone. E disse que nas próximas casas continuaria fazendo.

Mas pra minha surpresa, na semana seguinte não tinha nenhuma caixa marcada. Nem na outra. E ele sempre me empurrando mais quindins, que eu não queria. Foi aí que chegou ao cúmulo de ele entrar no terreno do vizinho pra bater na janela da minha casa porque eu demorei pra atender na frente. De certa forma, começou a invadir a minha privacidade. E eu comecei a me esconder dentro de casa (sim, sou um covarde, com vergonha de ser “grosso” com o cara só por dizer “não”).

Foram umas 3 vezes que eu gelei ao ouvir palmas na frente de casa e me meti num cômodo escondido, depois de fechar tudo. Comecei a pensar em como me livrar dele, pra sempre. Era falar com a máfia chinesa ou me mudar. E me mudar incluía arranjar um emprego full time, coisa que em Porto Alegre não tava rolando.

Hoje faz um mês que arranjei trabalho em São Paulo e vim morar aqui. Finalmente dei um jeito de me livrar do vendedor de quindins.

itinerância hereditária

O vô falou pouco antes de eu sair que ele foi até Porto Alegre pelos seus 16 ou 17 anos. Botou a mochila nas costas e foi. Desceu de Brusque, passou por Florianópolis e Aranguá, até atravessar a fronteira com o Rio Grande do Sul, antes de 1945. Depois de visitar a capital gaúcha, subiu a serra e visitou o interior do estado até chegar em Santa Maria e subir pelo velho-oeste catarinense. Foi até a divisa com o Paraná, em Porto União, descendo por Videira (diz ele que um homem o chamou pra trabalhar e morar lá. O que seria de mim né?) e voltando pra casa por Blumenau.

Alguns anos depois ele viajaria pro Rio de Janeiro, onde seria projetista de cinema e compraria sua primeira bússola, o que definiria sua profissão pro resto da vida: medidor de terras. Um desbravador nato.

O motivo? O mesmo que o meu, da minha mãe, dos meus tios e dos tios dos meus tios: botar a mochila nas costas e caminhar o mundo.

(essa é a única foto que consegui.)