Desprendendo o sentido

(…)embora a razão tenha trazido para o homem a capacidade de dominar o mundo, especialmente através da ciência e da técnica, trouxe também consequências negativas: a perda de sentido e a perda de liberdade.

Max Weber.

Do livro abaixo (citado numa conversa do facebook):

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a imodéstia do artista do século

Pra contextualizar: imagine um ambiente permeado pela troca cultural, uma época em que a “população” de artistas triplicará (no mínimo), porque de repente todo lugar e momento se converte em galeria/exposição diante da indistinção do público/privado. E não é a população que cresce literalmente, mas a possibilidade de criar. Pense nos milhares de fotógrafos de celular, nos designers autodidatas, nos djs caseiros, na Escola de Artes Cênicas do Youtube ou na galeria de arte contemporânea da Rua. Como vamos lidar com isso nos próximos anos? Não é o artista o arauto dos novos tempos, o radar da humanidade?

(acima, o programa responsável pelo parto desse texto)

Essa explosão repentina de gente criando, fazendo coisas novas, recriando e conversando faz surgir uma espécie de “nova atmosfera” social. Estaremos cada vez mais cercados de música, de movimento, de poética e de design nos próximos anos. Veios criativos pipocam por aí, e quanto maior a conectividade entre eles, maior é o fluxo criativo. A construção da pós-modernidade no século passado é revista atualmente, estamos vestindo novamente o figurino vintage, agora pelo avesso. Olhamos pra trás com um ar de já ter passado por tudo aquilo. Com isso, nos acostumamos com a ideia de coletivo criativo, vida em comunidade, auto-sustentação e contra-cultura. De novo. Mais novo.

Vai-se perder a razão, mas não a fé.

Todo ser humano é um artista em potencial. Já passamos de todas as fases de redescobertas do ser humano. Passou o cubismo. Passou Basquiat. Até o graffiti já passou. Agora, façamos o caminho inverso da modernidade. O que faltava ao artista, não falta mais. Mostre-se a quem quiser (te ver). Mas não queira ser o centro das atenções, isso não é saudável pra você, nem pra ninguém.

Ao invés disso encontre os outros, os iguais e os diferentes. Isso é a criatividade, que não pode ser mais exclusividade dos “gênios” – estes que já não tem mais o propósito de existir – descobrimos seu segredo: a criatividade vem dos outros, de copiar e reinventar. Remodelar. Tudo é remix. Os gênios são todos aqueles que descobriram a ingenuidade de descobrir as diferenças.

E o que está por vir? A compreensão? “Grandes estruturas abstratas”, com certeza. O mundo físico tomará um novo significado, o reinventaremos.

Mas não se esqueça: olhe pro lado e escute quem estiver ali. E diga isso a quem estiver do outro lado.

‘vai que’

O fator ‘elemento surpresa’ é mais conhecido pelo nome de ‘vai que’. Você está no ponto de ônibus e ‘vai que’ aquela gatinha sentada ali do seu lado vem conversar com você sobre a banda que você tá ouvindo no mp3 player (‘vai que’ ela curte Radiohead né?) Ao mesmo tempo, ‘vai que’ antes de você dizer qualquer coisa chega o ônibus dela e você nem soube se ela também ‘descurtiu’ o ‘King Of Limbs’.

Esse é o elemento surpresa, princípio básico de qualquer ambiente sujeito à casualidade, como o nosso.

É por não saber o que vai acontecer que desenvolvemos a racionalidade, pra tentar prever com alguns dias de antecedência se vai chover ou não e se devo usar calça ou bermuda. Quando aplica-se isto a eventos ou objetos inanimados, é possível conseguir fazer uma previsão com alguma margem de erro do que vai acontecer ou não. Quando você tenta aplicar isso às pessoas, a coisa é mais complicada. Dizia o Freud que era possível fazer um mapeamento da psiquê das pessoas e seus comportamentos, mas é praticamente impossível o fazer quando você fala de um grupo de pessoas. Quais são as chances de você saber como tal pessoa vai se portar diante de um contexto x com indivíduo y?

Mas parecem que as coisas começam a mudar de rumo, ao menos no mundo virtual. A otimização algoritmíca dos mecanismos de busca é um agravante. A otimização social já é um pouco diferente. Ferramentas como o Hunch ou o Get Glue servem pra tentar entender seus gostos e preferências e lhe indicar conteúdo na web de acordo com essas preferências individuais. Isso me leva a questionar onde fica o fator casualidade nisso tudo (que é totalmente a ver com ‘serendipidade’ comentado no post da TechCrunch). Permitir que um robô escolha por você os assuntos de relevância, levando em consideração apenas suas preferências e gostos não é comparável a buscar sempre as mesmas opiniões de um único veículo de comunicação? Parece que os círculos sociais se fecham, o que rola nos nichos não sai dos nichos. A internet tá mais parecendo um quarto de espelhos.

Mas vai que… né?