Eu nem sabia que podia ser “ombudsman do universo”

Com o tempo vamos deixando pra trás as antigas relações hierárquicas de trabalho, de departamentos que não se conversam passamos para uma grande rede colaborativa, ampliando o escopo criativo, aproveitando os indivíduos como potências e, sobretudo, canalizando aquela paixão que leva alguém a passar dez anos fazendo algo sem grandes recompensas financeiras.

Não é pelo dinheiro que fazemos isso, mas pelo simples prazer de fazer algo que se gosta. Quando isso acontece, feriados e final de semana deixam de ser uma fuga do “trabalho” pra ser um respiro no processo (o melhor é jogar isso na cara daqueles chatos que falam de trabalho=tripalho). Mil vezes um trabalho que você goste e se realize (sendo assim, deixando de se encaixar na categoria “trabalho”), do que ganhar na mega sena.

Há algum tempo eu faço umas coisas, meio no empirismo, meio sem pensar, e hoje me dou conta de que são aptidões desenvolvidas a partir de algumas paixões minhas: pessoas, internet, caos. Como é difícil categorizar gostos aleatórios eu renomeei algumas das minhas “funções sociais” (tipo o cargo “diretor de whatever“), coisas que eu nem sabia que eu podia ser:

Camaleão Social: É permitir-se mudar e não se apegar às formas nem às ideias.  Me assumo leigo para evitar os vícios. A curiosidade mantém esse trânsito pelas culturas e pessoas. Também chamam de “stay foolish, stay hungry”.

Redator pra Web: Talvez minha única atividade “séria”. Disposição pra “sentar e conversar” é o primeiro dote. A internet é uma grande conversa, tem que saber dialogar. E o diálogo é multimídia: usa texto, vídeo, áudio, imagem, e os hiperlinks. O redator pra web capitaneia o navegar pelo oceano de informação da internet; saber montar as conexões pra tornar isso possível é imprescindível. (post atualizado: larguei mão da redação e tô pegando planejamento agora. a quem interessar possa.)

Designer de Convívio: Apresentar pessoas novas às pessoas velhas, tendo ideias novas a partir das ideias velhas. Deu pra entender? Uma das coisas que eu acho mais legal de fazer na VIDA é agrupar pessoas com ideias semelhantes e/ou hiper-opostas. Conecte os pontos entre os seus amigos, promova o embate de ideias entre eles. A analogia visual disso fica entre uma constelação e uma colcha de retalhos social.

Ombudsman do Universo: Ombudsman é o cara que ouve as críticas e sugestões. É a ouvidoria. Então, recebo as energias cósmicas a fim de uma melhora na autocrítica e nos serviços prestados à comunidade galática. Enfim, ligar o shuffle da vida.

Isso tudo tem a ver com meu outro post “reajuste de expectativas” também.

(fotos da Ana Cabaleiro)

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Um não tão novo tipo de trabalho

Pois bem, ganhei umas edições velhas da revista Trip do meu pai.

Numa de 2003 eu achei uma matéria sobre uma nova forma de se pensar em trabalho. Um novo jeito, meio diferente daquilo que nossos pais pensavam, sobre “ter uma casa própria, um emprego no Banco do Brasil e uma família”, como disse a filósofa Viviane Mosé. Isso soa familiar ainda, não?

Percebi que não é tão nova essa ideia de se trabalhar com algo que você goste tanto que possa se atirar de cabeça, tornando seu trabalho algo tão bacana que você nem chama de trabalho. Essa coisa que taguearam de “worklover” hoje em dia. E é possível.

Eu acredito que se um tema pauta nossas conversas por mais de 8 anos, é porque talvez aquilo seja bem da verdade, ou no mínimo relevante. De imediato lembrei daquele texto do Alexandre Matias sobre trabalho, “sua vida, saca?”, que ele escreveu em 2007 e citou esse ano (ou ano passado) ainda como um assunto atual.

É pertinente pra mim – pessoa recém-formada em publicidade, com 21 anos, na “época mais produtiva de nossas vidas”, como diria o Léo – e pra muita gente que tem sacado que o futuro não é mais que uma promessa, e quem constrói ele é você. Depois de tudo que aconteceu no século passado, todas as descobertas e liberações, será que ainda é válido ter que se standardizar pra “ser alguém na vida”? Isso tem bem a ver com o lance todo de Geração Y (vídeo em anexo pra quem não sabe ainda o que é isso), Caudas Longas e revoluções espanholas.

Esse mundo de hoje já não precisa de gente que simplesmente execute e reproduza. A gente tá precisando de gente que pense, execute, conecte e trabalhe em grupo. Certas hierarquias já não fazem mais sentido. A maioria das vezes elas geram uma competição inútil pra alcançar um topo. E só.

Nessa matéria da Trip tem uma entrevista bacanosa com a Viviane Mosé. Se tu ler a entrevista com ela e o texto do Matias, não preciso explicar mais nada.

Vai lá, tem no Google Books, tá lá pela página 86.

PS1: O texto to Matias é de 2003, e foi re-postado em 2007.

PS2: numa Trip de 2001 tinha uma seção que fala da descriminalização da maconha. Do mesmo jeito que falam hoje. Não mudou nada 😛