Meu querido pé que me aguenta o dia inteiro

Comprei um tênis essa semana. Estamos nos dando bem. Andando – e pra frente – como tem que ser. Parece que fomos feitos um para o outro. Se vamos continuar juntos daqui 10 anos eu não sei. Se não for, não era pra ser.

Vamos juntos até a língua rasgar e a sola deixar que os meus pés fiquem molhados quando quiçá chover em São Paulo. Não poderemos mais tomar banho de chuva.

Quando já não mais sentir sola, nem me sentir em um tênis, e caminhar parecer o ato mais natural, quando meus pés em chamas engatarem em marcha ao que finalmente desponta como um rumo pra vida naquele horizonte, aí vamos nos deixar de lado.

Eu vou seguir andando, enquanto você descansa pendurado atrás da porta ou nos fios emaranhados de algum poste.

O disco inexistente do Wado

A melhor notícia da manhã foi o lançamento oficial do disco novo do Wado, o tão aguardado Samba 808. Vi no feice, baixei, ouvi e tá baita bom. Colaboram no disco o Alvinho Lancelotti, o Curumin, o Marcelo e a Mallu, Chico César e André Abujamra. E quando resolvi abrir o release que acompanha o disco na pasta zipada, descobri um manifesto. Ou, na verdade, só aquilo que tá na cara de todo mundo faz um tempão:

O disco inexistente

Aos amigos, compositores, parceiros, jornalistas e ouvintes.

Depois de cinco discos, dez anos de chão e afirmação confirmada de que fazemos isso mais por necessidade de expressão e realização pessoal que por questões de mercado, chegamos de Alagoas agora com este Samba 808.

Tem entre duetos e parcerias uma constelação: Zeca Baleiro, Curumin, Chico César, Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, Fernando Anitelli, Fábio Góes, Alvinho Lancellotti, André Abujamra e Momo.

E minha querida banda: Rodrigo Peixe, Pedro Ivo Euzébio, Dinho Zampier, Bruno Rodrigues e Vitor Peixoto.

Depois de conversas com alguns selos nada pareceu muito justo ou recíproco nos interesses e optamos por extremar o do it yourself deste álbum: Estar em selo/gravadora servia para distribuição e para dar visibilidade, gravadora não tem dado visibilidade e distribuição… Os caminhos na internet têm resolvido isso melhor.

Este disco é um presente pra você.

Lançar ao mesmo tempo para o público e mídia foi nossa idéia, dando brechas para sorte e subvertendo as antigas prioridades do sistema de distribuição, que tinha como pré-requisito a aceitação da mídia e espaços comprados para a divulgação.

As músicas estarão editadas de forma tradicional para rádio, TV e demais mídias e irão gerar o direito autoral de praxe.

Existem outras questões também relativas a lançar o novo disco digitalmente apenas, no site, disponibilizando todas as faixas e encarte, um contador de downloads será nosso termômetro.

Desta forma poupamos um pouco de plástico e papel deixando o disco apenas como uma obra intelectual sem suporte fixo para se ouvir, o que já é a prática da maioria (e que economiza um tanto de outras tralhas, não haverá informação tátil, pensamos mais pra frente de ter uma prensagem como souvenir de show, isso é incerto), damos um passo adiante em muitas questões, podemos ter problemas com a falta dele físico, mas me parece bem coerente com a cultura do mp3 hoje e a natureza do disco nos anos 10 que estamos vivendo.

Aos blogueiros amigos, pedimos que postem/recomendem o disco apontando para o nosso site (http://www.wado.com.br/download/discos/wado-samba808-2011.zip) para que saibamos realmente quantos downloads foram feitos.

De ser o Samba 808 tocado com uma máquina velha reutilizada, de ser um refugo de tecnologia, é bem dentro do raciocínio. Baixa, deleita ou deleta, fofoca pros amigos que é bom ou ruim e convida os outros a clicarem neste borro de gêneros.

Wado

E além de distribuir gratuitamente no site, dá pra ouvir o disco inteiro no youtube. Sabe o lance da Cauda Longa? A “nova” economia, o “novo” mercado? A primeira música do disco define muito bem: “há um céu suficientemente grande para todas as estrelas que aí estão”.

Bom, de novo, dá pra baixar aqui.

numa conversa com deus, ou o diabo

Numa conversa com deus ou o diabo:

– Quantas intenções você tem aí?

– Nenhuma que valha a pena. Quatro pra uma.

– Teus olhos não te deixam mentir. Suas intenções tão na cara.

– Elas me custam os olhos. Nesse negócio não tem como enganar o cliente. O tráfico de intenções sempre foi mais perigoso que o tráfico de influências, ele o precede. Te descobrem logo como bem ou mal intencionado. Sabe dissimular?

– Pra quê?

– Cada um sabe o que faz com suas intenções, mas a dica que eu dou é saber dissimular as intenções. De boas intenções o inferno tá cheio.

– Não são os julgamentos morais, mas a tal da consciência que pesa. Um diabo matreiro que confunde o jogo das recompensas. Elas aparecem no jogo antes da rodada terminar, deixando o pobre sujeito perdido munido apenas de suas intenções. E aí ele cai, com o espírito pesado, embora esteja na maior das boas intenções. Sei bem.

– Um bom jogador vai na direção oposta das recompensas. É assim ele chega mais perto delas.

– Pra citar Wado: “Uma ode ao que não é necessário, a sofisticação de inutilidades. Seguimos vivendo os dias, adaptando os planos. O jogo não começa agora, está valendo há muito tempo. Desde a primeira partida, campeonato longo. Gostamos de jogar com graça. E, sempre que dá, de manter intactas as canelas dos outros. Necessidades desnecessárias.”