Imagina se isso passasse em horário nobre

“Você é o Babaca do Dia Dez.”

Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem, o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.

O André Dahmer provocaria um suicídio em massa.

a vida é uma cidade

Nossas vidas nunca serão como a gente gostaria que fosse. É tudo construído aos trancos e barrancos.

Olhando pra vida sob o viés da arquitetura: construímos nossas relações, com o mundo e com as pessoas, assim como crescem as cidades. A gente vai empurrando os problemas com a barriga, deixando pra resolver depois nossos assuntos mais periféricos, dando importância praquilo que julgamos ser mais importante pro resto de nossas vidas.

Somos seres urbanos, expandindo nosso olhar pro mundo de acordo com as necessidades que se apresentam neste ou naquele tempo-espaço. Dessa maneira, vamos construindo uma mescla de soluções, umas por cima das outras, mudando e combinando-se de acordo com a mutabilidade de nossos problemas. Acontece de maneira semelhante aos aglomerados urbanos, talvez em outra escala. No macro, uma metrópole, no micro, uma casa sempre por terminar.

Mas, de onde veio a ideia de que seria melhor planejar a vida dentro de condições ideais de “temperatura e pressão”? Nem sempre uma cidade planejada é a melhor pra se viver, porque assim ela não se permite às descobertas randômicas que só os ajuntamentos babilônicos favorecem.

É o homem que organiza a vida ou a vida que organiza o homem? Planejando ou não, cuide bem dos casarões antigos. E ponha mais luz nos becos e vielas.

Duas dicas pra VIDA

Duas premissas básicas pra direcionar a vida. Quase tudo que eu tenho feito se baseia nelas:

1. Como vai ser daqui a 10 anos?

Com a primeira eu quero dizer: Mudança. A mudança é a lei da vida, dizia o I Ching. Então se tudo muda, saiba que as coisas daqui a dez anos não serão como as conhecemos hoje. Se não por elas, por nós.

Dez anos não são necessariamente 10 anos. Pode ser 1 mês ou 50 anos. Acredite, tudo muda com o tempo. A barba cresce, os cílios caem, as pedras viram areia, e a areia vira pedra. Quanto tempo dura um horizonte no deserto? Quantas ideias lhe passam pela cabeça enquanto você tenta tirar aquele pedaço de carne que ficou entre os dentes depois do almoço? O recheio do tempo é o que diz quanto tempo o tempo realmente dura. E o Einstein com sua relatividade.

Sabendo que nada permanece inalterado, lembre-se de que alguma coisa vai mudar antes do “fim da história”. A maioria das pessoas trabalha com cenários atuais. Isso é estar preparado pro pulo do gato, pro bote da cobra, ou seja lá como você prefere chamar esse plot point da vida. Isso é ser capaz de conceber uma algo que ainda não tomou forma, é entender o processo e como ele vai levar as coisas até um ponto culminante que você imaginou. Mas cuidado, a ideia disso tudo é virtual, é só projeto. E projetos podem mudar no meio do caminho, tomar outros rumos, porque em “10 anos” tudo muda.

O que parece certo hoje amanhã já não vai parecer tão certo, e você vai reconsiderar algumas opiniões que pareciam ser tão ridículas. Não são. Depois de passar anos ouvindo metal e odiando “pagode”, você se pega fazendo aula de gafieira. “Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar.”

2. E se fosse o contrário?

Agora, e se fosse o contrário? E se o que eu imaginava pra dez anos fosse o inverso? Essa pergunta serve pra absolutamente qualquer coisa na vida.

Primeiro por ver o outro lado. Eu comumente uso isso em relação às pessoas: e se fosse eu no lugar dele? Se essa situação fosse comigo, será que eu faria da mesma forma? Por que ele age assim? Se eu tivesse o mesmo background dele, eu faria diferente? Em 10 minutos (espero que não demore 10 anos pra acontecer isso com você) você se pega pensando sobre qualquer situação como um todo, sem se apegar às tuas perspectivas. Essa é a diplomacia do indivíduo, que pela empatia ajuda a resolver essas pequenas guerras diárias, de conflitos por interesse.

Pensar no contrário da situação te leva ao outro extremo, mas não é ao extremo que você deve se ater, mas à “escala likert” ali no meio. É o que leva de um extremo ao outro, o 180º da vida. Olhar pros lados, sabe? Entender que existem tantas possibilidades e coisas a serem vistas quanto um passeio de Google Street View.

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No fim, é tudo sobre projeção de cenários. Projetar cenários futuros e dar um giro de 360º por eles. A vida é isso aí, como abrir uma porta no final de um corredor estreito, apertado, e dar de cara com um abismo.

(a primeira imagem é daqui e a segunda é daqui.)

Lendo: “vai doer, mas é bom”, por Louback

Crianças, saiam da sala. Se não estão acostumadas com a verdade, é melhor não continuarem. Pois eu tenho um recado a dar: as coisas não vão melhorar. Não vai ficar tudo bem. As coisas só tendem a piorar. Mais responsabilidade, menos tempo, menos dinheiro e mais dor de cabeça. Passar na faculdade é o de menos. Espere até tentar arranjar um emprego. Depois, tente arranjar um que te satisfaça. Ah, as mentiras que nos contam.

Esses dias achei meu flavors antigo, cuja senha foi colocada dentro de uma garrafa e jogada ao mar faz uns tantos. E lá dentro tinha pedaços do meu blog antigo, o “Rangendo Dente”, de onde tirei esse texto do Gabriel Louback. Hoje vejo como 2011 precisava ser um ano forte de mudança.

Tem um comentário que diz: “Favoritado para referências futuras (principalmente durante crises existenciais que, vira e mexe, popam nos nossos IMs).”

Mas eu que não vou estragar a melhor parte da brincadeira, confiram o texto na íntegra aqui (e vale muitíssimo a pena, pelo motivo citado no comentário acima).

PS: a foto é do Adriano Braga, de Porto Alegre.

carruagem do tempo (goethe)

“Criança, criança! Basta! Como fustigados por espíritos invisíveis, os cavalos
solares do tempo arrebatam consigo o carro leve do nosso destino, e nada
mais nos resta senão segurar firme as rédeas, com toda nossa bravura, todo
o nosso sangue-frio, e desviar as rodas ora para a direita, ora para a esquerda,
aqui de uma pedra, ali de um precipício. Para onde vamos…quem o sabe? Mal
nos lembramos de onde viemos.”

Goethe, Memórias, “Poesia e Verdade”.

falar cansa

E a minha mãe me passa esse curta de animação hoje

todo traduzido pro audiovisual, uma linguagem quase universal.

Não dá pra falar o que é, só do que se trata. Como no outro semi-homônimo “Words”, ele te propõe uma metalinguagem em que você enxerga a comunicação. E no final disso tudo, é tudo o mesmo. Os mesmos dramas, as mesmas histórias. A vida é uma epopéia, seja quem você for, em que parte do mundo estiver.

Falar cansa.

‘Como está a água?’

“Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.”

Pare o que estiver fazendo agora e leia esse texto aqui. Talvez você se identifique e… bom, vale a pena.